Cientistas exploram o lugar mais perigoso do mundo

O Centro de Estudos de Venenos de Animais Peçonhentos (Cevap), de Botucatu, juntamente com o Instituto Vital Brazil (Butantã) de São Paulo, implantou uma base operacional na Ilha de Queimada Grande, litoral sul de São Paulo, para proceder a pesquisa detalhada da biologia, ecologia e do veneno da serpente Bothrops insularis, popularmente conhecida como jararaca-ilhoa.

São parentes das jararacas continentais, só que donas de um veneno de 12 a 20 vezes mais forte. De coloração marrom clara, a jararaca-ilhoa atinge até dois metros de comprimento e é a única espécie do Brasil que vive em árvores. Sua picada pode matar uma pessoa em apenas seis horas.

A particularidade desta serpente é que ela só existe na Ilha de Queimada Grande e em nenhum outro lugar do planeta. A infestação da serpente faz da ilha o local mais perigoso do mundo. Já foi apontada como o verdadeiro inferno na terra, onde inexiste água potável (os animais bebem apenas a água da chuva).

A ilha está localizada a 36 km da costa Continental de Itanhaém e vista de longe é de uma beleza exuberante. Porém, o lugar possui uma média muito expressiva de serpentes por metro quadrado. Para se ter uma idéia de como esse lugar é perigoso, ninguém pode entrar na ilha sem autorização da Marinha, em razão dos sucessivos relatos de acidentes fatais.

Pescadores da região sabem que a ilha não é um lugar receptivo e jamais desembarcam lá. São esses homens do mar os responsáveis pelo nome da ilha. Cientes do risco que corriam ao desembarcar em terra firme, eles ateavam fogo na mata costeira para afugentar as serpentes. A técnica deu origem ? denominação Queimada Grande, mas foi incapaz de ameaçar o reinado da jararaca-ilhoa.

Entre os cientistas que estão estudando a jararaca-ilhoa, está o biólogo e vice-diretor do Cevap de Botucatu, professor Rui Seabra Ferreira Júnior, que visitou a ilha numa expedição científica. Mesmo tendo experiência em manusear diferentes espécies de serpentes, se mostrou bastante surpreendido com a quantidade de cobras que vivem no lugar.

“Realmente é uma situação diferente. Em cada canto da ilha é muito fácil encontrar esse tipo de serpente, principalmente em árvores e arbustos onde ela permanece camuflada emboscando pássaros migratórios que são sua principal fonte de alimento. Todo cuidado é pouco para caminhar pela ilha. Tem que olhar para todos os lados e ver onde está colocando a mão”, conta Seabra.

Outra observação do biólogo, que torna essa serpente ainda mais perigosa, é a sua coloração, fazendo com que se confunda com um galho de árvore. “Em outro habitat ela poderia passar despercebida, mas não nessa ilha, em razão da quantidade. Não encontramos nenhuma dificuldade em capturar algumas espécies, o objetivo da pesquisa”, frisa o biólogo, que ainda não definiu uma data para retornar ? ilha, que é um viveiro natural de jararacas.

Estudos sobre a origem dessa cobra na ilha revelam que ela teria ficado presa ? ilha e seu principal alimento passou a ser aves. Especializou-se em subir em árvores para surpreender sua presa, o que não é natural para as espécies do continente. Seu veneno tornou-se mais potente para garantir a morte imediata da vítima que, se demorasse a morrer, poderia acabar no mar.

Porém, a jararaca-ilhoa que mata suas vítimas na natureza, pode salvar vidas humanas. Ao estudar o veneno da jararaca comum, pesquisadores brasileiros descobriram, em 1948, o vasodilatador bradicinina, que tem ação anti-hipertensiva e que mais tarde deu origem ao medicamento Captopril.

Em 2001, foi patenteado outro anti-hipertensivo baseado nas mesmas toxinas, o Evasin. Embora essas substâncias, do ponto de vista bioquímico, sejam parecidas nas duas espécies – tanto que o soro antiofídico é o mesmo –, acredita-se que as poucas enzimas diferentes da peçonha da jararaca-ilhoa possam dar origem a novos fármacos (medicamentos).