Cidade de Botucatu está de luto com a perda de Elias Francisco

“Alô gente amiga, bom dia!”. A voz vibrante que disse essa frase milhares de vezes no Programa “Peça o que Quiser” ou no programa matutino “O Palanque” se calou para sempre. Na manhã desta terça-feira a Cidade de Botucatu recebeu a notícia da morte do locutor Elias Francisco Ferreira, aos 74 anos de idade.

Era o profissional mais experiente com 51 anos de profissão. Sem dúvida uma das vozes mais conhecidas do rádio botucatuense. Aliás, Elias é a própria história do rádio botucatuense. Um profissional que entrou no ar há 50 anos, sendo 48 deles, como apresentador do programa “O Palanque”, na Rádio Emissora de Botucatu – PRF-8, ao lado de outra lenda do rádio: Plinio Paganini.

No ano passado, após mais uma apresentação do programa “O Palanque”, quando ainda não tinha completando 74 anos, Elias Francisco concedeu uma entrevista ao jornal {n}Acontece Botucatu{/n}. Debilitado, porém, extremamente, lúcido contou fases de sua vida no rádio.

Elias revelou que começou no rádio, na cidade de São Manuel em 1960, onde fazia um programa noturno, das 20 ? s 22 horas chamado “Noite Romântica”. Durante o dia exercia sua profissão de origem: farmacêutico. Em maio de 1962, a Rádio PRF-8 era a melhor da região e o Plínio Paganini que era o diretor, o convidou para fazer parte da equipe.

“De início relutei, porque entendia que não estava preparado para assumir uma função em uma rádio grande como a de Botucatu. O Plínio insistiu tanto que acabei aceitando e fui fazer com ele “O Palanque”. E estou no mesmo programa até hoje. Só aqui na F-8 completo 48 anos de trabalho. Quando iniciei no rádio já estava contratado pelo Jairo (Luiz de Andrade) para trabalhar na farmácia Santa Gema Galgani, na Vila Maria. Entre o rádio e a farmácia optei pelo primeiro, para desespero de minha família, pois era farmacêutico e não locutor”, lembrou Ferreira.

Foram incontáveis entrevistas feitas pelo locutor ao longo dos anos. “Não dá para precisar quantas personalidades eu entrevistei. Foram muitas, presidentes da República, governadores, empresários, deputados, senadores, esportistas, cantores e artistas. A gente passa o dia inteiro citando nomes. São 50 anos de profissão. Não faço nem idéia”, colocou.

A única vez em que pensou em deixar o rádio foi quando seu companheiro, Plínio Paganini, veio a falecer. “Aquilo acabou comigo, me desestruturou. Pensei em desistir, pois achava que a rádio sem o Plínio não teria mais sentido. Éramos como irmãos, compadres e vivemos juntos um olhando para a cara do outro, quase 50 anos. Nesses anos de convivência a gente chorou muitas vezes, riu, brincou, brigou, mas sempre estivemos juntos, um ao lado do outro. Foi penoso continuar sem ele”, recordou Elias Francisco.

Rindo, conta que o Plínio queria transmitir tudo na rádio e não media esforços para isso. “O Plínio queria que a gente transmitisse até briga de gafanhotos. Futebol então, narrei de tudo que é jeito. Eventos iam de velórios a encontro de autoridades. Acredite se quiser: eu já fiz uma transmissão ao vivo do teatro. Isso mesmo narrei uma peça ao vivo. Estavam lá ao atores representando no palco e eu narrando o que acontecia na platéia. Acho que esta foi a única vez na história que um locutor de rádio narrou uma peça de teatro. O Plínio me fez fazer isso e com ele não adiantava brigar. Ele era o diretor e a gente tinha que cumprir”.

Uma das coisas que Elias não esquece é a rivalidade que havia entre as duas rádios: PRF-8 e Municipalista. “Hoje vivemos em paz, somos co-irmãs, mas nem sempre foi assim. Houve uma época, nos anos 70, em que a rivalidade chegou ao extremo. Se as duas peruas de reportagem se cruzassem na rua, a colisão era certa. Era assim mesmo, as peruas batiam de frente. Era um absurdo a rivalidade dos funcionários. Hoje se vive no céu, mas nós vivemos no inferno”, comparou.

A reportagem não perdeu a oportunidade e pediu que narrasse pelo menos um caso que mostrasse esta rivalidade. Ele lembrou um que aconteceu no auge dessa desavença. O Plínio Paganini havia conseguido que o jogador Zé Maria que tinha sido campeão do mundo em 1970 aceitasse participar de um jantar em sua homenagem. O Zé Maria aceitou e a festa foi preparada com uma grande divulgação. Mas, o que era para ser uma homenagem acabou virando numa batalha de grandes proporções entre os profissionais das duas emissoras.

“No dia da homenagem, o saudoso Jaime Contessote, que trabalhava na Municipalista, foi de encontro ao Zé Maria na estrada, mais ou menos ? s 16 horas da tarde (o jantar estava marcado para as 19 horas), com sua equipe e praticamente sequestrou o jogador na metade do caminho, dizendo que ia acompanhá-lo. Saiu com ele e o povo ficou esperando. Para encurtar a história, o Zé Maria só foi liberado tarde da noite e permaneceu em um restaurante na cidade de Porto Feliz. O Élcio Paganini, que era diretor da rádio, estava esperando o jogador na Sabesp com uma equipe, arrancando os cabelos e quando percebeu que ao lado do Zé Maria estava o Contessote sorrindo, partiu pra briga. Foi tapa e murro pra tudo que é lado. Uma briga generalizada entre as duas equipes. Foi uma loucura e o Zé Maria ficou sem entender nada, mas a homenagem, mesmo que tardia, acabou sendo feita”, contou.

Embora com 74 anos, Elias Francisco não pensava em se aposentar. “Não penso em parar. Se ficar parado não vou saber o que fazer. Já estou nesta vida há 50 anos e fazem 48 que subo os degraus dessa rádio sem nunca olhar para trás. Olho pra frente e vou até onde Deus quiser. O dia que Ele me convocar, eu vou. Você pode fazer tudo na vida, mas não pode escapar da convocação de Deus. Um dia Ele vai me chamar e nesse dia eu vou, deixando para trás uma vida sem mácula. Nunca tive um processo, nunca fui a uma delegacia, nem como testemunha. Criei e eduquei meus filhos. Então, se Deus entender que meu ciclo terminou é só me convocar que eu vou”.

Fotos: Quico Cuter / Valéria Cuter