Cheguei a acreditar que o Lula mudaria o País

Antes de qualquer coisa devo adiantar que não sou petista nem milito em nenhum partido. Muito menos tenho pretensão futura de concorrer a qualquer cargo público. Nem tenho aptidão para isso. Mas o papo não é esse. Quero me reportar ? festa da posse da presidente Dilma Roussef que a maioria do povo brasileiro elegeu. Lula acertou na mosca em escolher a Dilma. Sinceramente não vejo nenhum nome do PT que poderia ser o candidato a sucessão do maior expoente do partido.

Lembrei-me quando Lula se elegeu pela primeira vez presidente da República depois de ter fracassado em três eleições anteriores. Não votei no Lula em nenhuma delas, mas a festa popular que se fez no Brasil me chamou a atenção. Fiquei estarrecido e estupefato. Quase cheguei a me arrepender por não ter votado nele. Afinal, não dizem que a voz do povo é voz de Deus?

Na ocasião comentei com o ex-vereador Luiz Rúbio, um dos petistas mais apaixonados pela legenda que eu conheço. “Cara, esse homem pode realmente mudar o Brasil. Nunca na história houve popularidade tão grande. Ele tem carisma e tem respaldo para fazer as mudanças que quiser e que o Brasil necessita”. Evidentemente, Rúbio concordou sem esconder a satisfação de ver seu maior líder chegar ao posto máximo da República e ser elogiado por uma pessoa que nunca foi petista.

E Rúbio é um petista doente. Ainda. Acho que nem o Lula tem tanto amor ao partido como ele. E olha que eu o conheço muito antes de ele se ingressar no sindicalismo e na política botucatuense. Foi meu companheiro das peladas de futebol no campo do time do Esporte Clube Mangueira, nos anos 70. Jogava descalço e só chutava de bico. Um horror! Mas, a despeito das suas qualidades como jogador, nós tínhamos (e temos até hoje) um respeito recíproco e ele sabe da minha aversão aos atos da grande maioria dos políticos.

Passaram-se os anos e depois dos dois mandados consecutivos, Lula não mudou o Brasil. Entendi que me empolguei com a manifestação popular. Lula continua com a popularidade em alta, mesmo fora da presidência e isso é mérito seu, mas é só mais um político como muitos que já passaram pela presidência e o PT um partido exatamente igual aos outros.

Minha maior decepção com o Lula foi no primeiro mandato quando ele fechou os olhos para as falcatruas de petistas, companheiros de décadas que se envolveram num esquema sórdido que ficou conhecido como “mensalão”, financiado pelo mineiro Marcos Valério (aquele). Depois veio o caso do dossiê com os “aloprados”, dólares na cueca, do caseiro Fracenildo, entre outros.

Então, essas pessoas que até então se intitulavam paladinos da honestidade, foram chamadas de quadrilheiros pela Procuradoria Geral da República. Entre eles José Dirceu (apontado como chefe do esquema), José Genoino, João Paulo Cunha, Delúbio Soares, Silvio Pereira, Jorge Lorenzetti, Luís Gushiken, Antônio Palocci, para citar só alguns, das muitas dezenas de envolvidos em escândalos. Lula passou por tudo isso ileso. Alegou desconhecimento e saiu fortalecido. Fosse o PT na oposição, seguramente, Lula seria incriminado como os demais e não escaparia da cassação de mandato. Por muito menos que isso Collor foi tirado da presidência. A verdade é que, embora tivesse a maioria no Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado), Lula teve contra si uma oposição medíocre, que falava muito e fazia pouco. Ou fingia que fazia.

E a despeito das corrupções e falcatruas apontadas no governo pela imprensa brasileira, Lula permaneceu inatingível. Com a popularidade sempre em alta. Boa parte dessa popularidade pode ser creditada ? esta oposição, sem credibilidade perante a população. Por isso, quanto mais criticavam o governo, mais faziam aumentar a popularidade do presidente.
Essa oposição deveria mesmo se espelhar no PT do passado, que mesmo contando com um pequeno número de legisladores se fazia notar e incomodava quem estava no poder.

Mas, o que me deixou mais aturdido foi ver o Lula atrelado politicamente com personagens nefastos como os peemedebistas Renan Calheiros, José Sarney e Romero Jucá, este o líder profissional de todos os governos e continua líder. A todos Lula havia chamado de ladrões e corruptos. Inúmeras vezes. Antes eles representavam a podridão da política. Depois, passaram a ser “fundamentais para a governabilidade do País”. Licença, mas essa tenho que repetir: “fundamentais para a governabilidade do País”. E olha que ouvi isso e ainda custo a acreditar que ouvi.

E agora Sarney é eleito para continuar na presidência do Senado Federal. Com 90% dos votos dos 81 senadores. Ele assumiu pela quarta vez o comando do Senado e fez uma promessa: “Esta foi minha última eleição. Depois de mais de 50 anos de vida pública, vou deixar a política e me dedicar ? s minhas coisas pessoais”, garante. Deus do céu! Quanto tempo mais esse cidadão pretende viver? E mais desanimador ainda é saber que ele tem filhos na política. E filhos de peixe, bagres são.

Então, embora reconheça o prestígio do ex-presidente, minha maior decepção foi vê-lo atrelado com o que de pior existe na política nacional. E mesmo assim continuou com um carisma pessoal notável. Isso me faz pensar em rever meus conceitos. Mas, por mais que me esforce não consigo ver Calheiros, Sarneys, Barbalhos e Jucás como pessoas necessárias para o Brasil. Possivelmente, a era Lula será lembrada daqui a alguns anos.
Sinceramente, não sei se para o bem ou para o mal. Isso o tempo, que é o senhor da razão, dirá.

Na minha modesta visão, o País da era Lula continua o mesmo. O pobre continua cada vez mais pobre. Vende o almoço para conseguir a jantar, enquanto os ricos continuam cada vez mais ricos. Se vangloriam os petistas do bolsa família, mas não é só isso que o povo precisa. O povo necessita de dignidade, de educação, de trabalho, de saúde.

Tá certo que com essa bolsa família, o presidente Lula atendeu a milhares de famílias no Brasil, mas isso é muito pouco para quem enfrentou a ditadura lutando por uma vida digna ao povo brasileiro. Temos fome, miserabilidade, desemprego, sistema de saúde falido e educação precária, entre tantos outros problemas sociais. Isso vem vindo de governos anteriores, mas permaneceu vivo no governo Lula e não tenho esperança de que vão deixar de existir no governo Dilma.