Cempas faz Botucatu referência em atendimento a animais silvestres

Fotos: Valéria Cuter

Carlos Roberto Teixeira é uma espécie de “Dr. Dolittle” em Botucatu. Enfaixa asas fraturadas de aves, faz exames e cirurgias em animais que muita gente grande talvez tivesse medo em encontrar e dá até leite na mamadeira para filhotes que se desgarraram do ninho precocemente.

Mas esse carinho e dedicação ? saúde dos animais tem um propósito: a preservação ambiental. E é como coordenador do Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Silvestres (Cempas), instalado no campus de Rubião Júnior da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que essa luta ganha corpo e faz do espaço uma referência para todo o País.

“Já recebemos grandes felinos do Acre que ficam sabendo do nosso serviço e os envia para o tratamento”, conta Teixeira, que também é chefe do Departamento de Cirurgia e Anestesiologia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp.

Apenas em 2011 foram contabilizadas 1.750 consultas novas, ou seja, 4,5 atendimentos por cada dia do ano. Pelo menos um terço dos animais chega ao Cempas lesionados por atropelamentos. Boa parte são filhotes. “O desenvolvimento das monoculturas, o avanço das construções urbanas nas áreas verdes e o aumento das malhas viárias diminuem os habitats naturais desses animais e contribuem para o aumento de acidentes”, explica o médico veterinário.

Antes da soltura no meio ambiente, a equipe do Cempas proporciona ao animal um check up completo para constatar se o mesmo é portador de alguma zoonose. Aqueles que precisam de um cuidado extra ficam em observação por mais tempo. “Mas o carro chefe são mesmo as pesquisas, que nos ajudam a encontrarmos novas soluções para a preservação das espécies”, comenta.

Mas essa excelência no atendimento tem se fortalecido não apenas pela dedicação do médico veterinário, mas principalmente com importantes parcerias. Desde 2009, com a Prefeitura de Botucatu, através da Fundação UNI (entidade sem fins lucrativos voltada ao desenvolvimento da saúde), foi possível ampliar mais duas bolsas para veterinários residentes que contribuem no atendimento diário de animais silvestres.

“Também temos parceria com a Unesp e o Zoológico de Sorocaba, que nos ajudam na manutenção de mais quatro residentes, totalizando seis profissionais. A intenção nossa é ampliar parcerias justamente para manter a qualidade no atendimento. Por isso posso afirmar que Botucatu é uma das pouquíssimas cidades brasileiras que se preocupam em tratar sua fauna da melhor maneira”, diz.

É o caso de Alicia Giolo Hippolito. Há dois anos ela atua como residente veterinária no Cempas. “Trabalho oito horas, mas ? s vezes fico pouco mais dependendo do que tem que fazer. Mas é um serviço gratificante e que só faz quem gosta mesmo”, afirma.

A parceria com o Poder Público não se resume apenas ? concessão de recursos para a manutenção dos residentes veterinários. O Cempas trabalha muito próximo ? s patrulhas ambientais da Guarda Civil Municipal e da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Vigilância Ambiental em Saúde, que passam constantemente por cursos de capacitação, especialmente na parte de manejo de animais em situação de risco.

“Isso é importante para que os animais cheguem ao Cempas em condições de atendimento. Por isso pedimos que as pessoas, ao encontrarem animais silvestres em alguma situação de risco, que chamem profissionais capacitados. Até mesmo para não expor familiares e outras pessoas a possíveis acidentes como mordidas e arranhaduras, ou doenças que esses animais possam ser portadores”, argumenta Valdinei Moraes Campanucci da Silva, supervisor de serviços de Saúde Ambiental e Animal de Botucatu.

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Oficialmente, o Cempas existe em Botucatu desde 1993, mas até 2005 não tinha um espaço próprio e adequado para pesquisa, atendimento e acompanhamento de animais silvestres. Desde então a demanda só aumentou.

Além de prestar atendimento especializado nas áreas de clínica, cirurgia e de diagnóstico a animais silvestres em situação de risco e obter dados para pesquisas na área, a fim de aumentar as chances de sobrevivência e soltura dos animais atendidos, o Cempas pretende retomar projetos junto ? s escolas de Botucatu com palestras de conscientização junto as crianças e jovens sobre a importância dos animais silvestres para o equilíbrio na natureza.

Outro importante projeto que tem sido conduzido pelo professor Carlos Roberto Teixeira, com anuência do diretor da FMVZ, Prof. Dr. Luiz Carlos Vulcano, é o da construção Hospital Veterinário para Animais Silvestres, no qual contempla ainda a criação do primeiro “Parazoológico” do Brasil. Nele, animais que não tivessem condição de serem reintroduzidos em seu habitat natural seriam utilizados em ações de educação ambiental.

A obra está orçada em mais de R$ 3,9 milhões. Parte deste valor deverá ser financiado pelo FID (Fundo Estadual de Defesa dos Interesses Difusos) e a outra pela própria Unesp. Porém, a concretização do projeto ainda depende de mais documentos e exigências estabelecidas pelo FID.