Arcebispo Metropolitano de Botucatu fala sobre a Páscoa

Não é correto esperar do Sacramento do Batismo, ou de outro sacramento, um efeito mágico estrondoso. Embora a Graça de Deus inerente ao sacramento seja eficaz, nunca falhe, de modo algum passa por cima de nossa consciência, liberdade e inteligência.

Ou seja, o Divino Espírito Santo age à medida que colaboramos. Isso significa que a experiência pascal, crucificar com Cristo o velho “Adão” será sempre uma luta lenta, tremenda e sofrida. Jesus, no monte Tabor, antecipou aos apóstolos Pedro, Tiago e João a glória da ressurreição (Mt. 17,) para que tivessem forças para superar a dor e o escândalo de sua morte de cruz.

Paulo nos ajuda muito quando abre seu coração e partilha sua luta interior: “Sabemos que a Lei é espiritual, mas eu sou humano e fraco, vendido como escravo ao pecado. Não consigo entender nem mesmo o que eu faço; pois não faço aquilo que eu quero, mas aquilo que mais detesto. Ora, se eu faço o que não quero, reconheço que Lei é boa; portanto, não sou eu que faço, mas é o pecado que mora em mim. Sei que bem não mora em mim, isto é, em meus instintos egoístas. O querer o bem está em mim, mas não sou capaz de fazê-lo. […] percebo em meus membros outra lei que luta contra a lei da minha razão e que me torna escravo da lei do pecado que está nos meus membros. Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte? Sejam dadas graças a Deus, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Assim, pela razão eu sirvo à lei de Deus, mas pelos instintos egoístas sirvo à lei do pecado”. (Rm. 7,14-25)

O Evangelho da Vigília Pascal (Mc. 16,1-7) nos apresenta as mulheres assustadas diante do túmulo vazio. Então elas ouvem a seguinte palavra: “Agora vocês devem ir e dizer aos discípulos dele e a Pedro que ele vai para a Galileia na frente de vocês. Lá vocês o verão, como ele mesmo disse”. Quem quiser ver o Cristo Ressuscitado, se encontrar com ele e com ele permanecer deve seguir para a Galileia (do dia-a-dia); de nada adianta ficar parado chorando e se lamentando. É preciso se por a caminho, mesmo que seja árduo.

Percebemos claramente na vida dos Apóstolos, na vida de São Paulo e de todos os Santos e Santas que Páscoa é um processo de morte e ressurreição com Cristo, por Cristo e em Cristo, que se dá no dia-a-dia, no cotidiano da vida. Isto é, diariamente, mesmo nas pequenas coisas e acontecimentos. É preciso, pois, parar de se lamentar com os problemas e dificuldades que surgem diariamente, sobretudo nas relações humanas: marido e mulher; pais e filhos; irmãos e irmãos; vizinhos e vizinhos; companheiros de trabalho. É preciso parar de fugir da CRUZ do cotidiano até mesmo na comunidade, na paróquia em que participamos. Muitas pessoas só sabem arranjar desculpas para uma atitude covarde e reclamar que na paróquia tem “fulano ou sicrano” que é “assim ou assado”; que o padre é “isso ou aquilo”.

É preciso vencer o medo de sofrer o que for preciso sofrer para resolver os problemas com amor e no amor. Afinal, sem os problemas do cotidiano, como aprender a perdoar e a pedir perdão? Como aprender a confiar em Deus de forma radical? Como aprender a amar e se deixar amar? Como aprender a dialogar com humildade e sabedoria? Como aprender a fazer e refazer a comunhão? Como aprender a se deixar santificar pelo Espírito Santo de Deus? Como aprender a ser instrumento de santificação para os outros?

Desejo a todos uma Santa e Feliz Páscoa do cotidiano e no cotidiano!

Abraço fraterno em Cristo, nossa Páscoa!

Maurício Grotto de Camargo – Arcebispo Metropolitano de Botucatu