Arcebispo Dom Maurício fala sobre polêmicas na igreja

Depois de ser ordenado bispo em Presidente Prudente e trabalhar por oito anos e meio em Assis, Dom Maurício Grotto de Camargo foi ordenado Arcebispo de Botucatu em 19 de novembro de 2008, iniciando suas atividades em 15 de fevereiro de 2009.
Desde sua ordenação presbiteral em abril de 1981, Dom Maurício tem no currículo uma extensa folha de serviços prestados ? igreja. Em entrevista ao Acontece o arcebispo fala sobre vários assuntos, entre eles a vocação sacerdotal, homofobia, regime celibatário e o papa Francisco.

{n}Acontece Botucatu – Dom Maurício, como foi sua ascensão na igreja até ser nomeado Arcebispo?

Dom Maurício Grotto de Camargo{/n} -Todo presbítero é naturalmente candidato ao Ministério Apostólico. Na Igreja, poder é serviço – diaconia – , não é “carreira” e quase todos os padres, esquecendo-se de si mesmos, entregam-se inteiramente , com muito amor, aos ofícios para os quais foram designados, conforme as necessidades da Igreja. Em geral, a Igreja busca entre os padres com aproximadamente vinte anos de ministério aqueles que, tendo uma experiência diversificada, estejam se destacando, por uma vida de pobreza, obediência e castidade, no serviço pastoral e demonstrando, sobretudo, capacidade de coordenação. Fui ordenado diácono no dia 20 de janeiro de 1980. Além de ajudar na Paróquia da Catedral de Presidente Prudente, fui nomeado Chanceler do Bispado e Pró-coordenador diocesano da Pastoral por Dom Antônio Agostinho Marochi, então bispo diocesano. A ordenação presbiteral se deu no dia 11 de abril de 1981. Além de vigário paroquial de Santa Rita de Cássia, da cidade de Presidente Prudente, continuei como Chanceler por mais dois anos e fui nomeado Coordenador Diocesano da Pastoral, cargo que exerci até 1988. No início de 1982 fui nomeado Administrador Paroquial de Álvares Machado. No início de 1987 fui nomeado Diretor Espiritual do Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus (filosofia) e, deixando Álvares Machado, passei a residir em Marília. Simultaneamente, passei a lecionar algumas disciplinas. Em 1990 fui nomeado Reitor do mesmo Seminário, cargo exercido até o final de 1992. Retornando ? diocese de Presidente Prudente, o bispo destinou-me para a paróquia mais distante. Em fevereiro de 1993 assumi a Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes de Rosana-Primavera, no Pontal do Paranapanema, onde trabalhei até o final do ano de 1996. Os bispos da Província de Botucatu (Bauru, Marília, Lins, Araçatuba, Presidente Prudente e Assis), a anuência de meu bispo, me chamaram de volta ao Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus. Assim, em fevereiro de 1997 reassumi a reitoria do referido seminário. Em novembro de 1999, antes de entregar a reitoria, assumi na CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – em Brasília, o cargo de Subsecretário de Pastoral. Por algum tempo acumulei o cargo de Subsecretário Geral. Na época o Secretário Geral era Dom Raymundo Damasceno, hoje presidente da CNBB e Cardeal Arcebispo de Aparecida. A nomeação de bispo coadjutor de Assis se deu no dia 03 de maio do ano 2000. Continuei na CNBB até o fim do mês de junho. Fui ordenado bispo no dia 30 de julho de 2000, em Presidente Prudente. Tomei posse em Assis no dia 15 de agosto. Assumi como Bispo Diocesano de Assis no dia 21 de outubro de 2004. Depois de oito anos e meio em Assis, fui nomeado Arcebispo de Botucatu aos 19 de novembro de 2008. E aqui estou, para servir, desde o dia 15 de fevereiro de 2009.

{n}Acontece – O Seminário São José de Botucatu foi responsável pela ordenação de muitos padres em sua história. Hoje, Dom Maurício, como o senhor está sentindo a vocação sacerdotal do jovem? E quantos seminaristas temos em Botucatu?

Dom Maurício{/n} – Atualmente temos um total de 17 seminaristas. Cinco aqui no Seminário São José – dois no ensino médio e três no propedêutico – ; cinco no Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus – estudantes de filosofia – e sete no Instituto Teológico Rainha dos Apóstolos – estudantes de teologia – estes dois últimos localizados em Marília. Poderíamos ter um número bem maior, mas temos dado prioridade para um melhor acompanhamento prévio nas paróquias e temos sido bem mais criteriosos no processo seletivo.

{n}Acontece – O celibato, estado no qual o padre se mantém solteiro e sexualmente abstinente, fazendo o voto de castidade, não contribui para o distanciamento de um jovem que esteja pensando em entrar para o Seminário?
Dom Maurício{/n} – De forma alguma. Primeiro porque o ideal de castidade absoluta vale para todo e qualquer jovem cristão solteiro. Segundo porque o jovem que realmente tem vocação, segundo a disciplina da Igreja, quer se entregar de corpo e alma ao ministério ordenado. Sempre foi assim, mesmo quando a Igreja chamava (até o II Concílio do Latrão – 1139) alguns homens casados para a ordenação presbiteral. O que realmente contribui para o distanciamento de um jovem não é tanto o celibato, mas a falta de uma autêntica experiência de vida cristã comunitária. Muitos dos que desejam ser padres, atraídos pelo mistério e pela beleza da liturgia (estética…) na verdade sequer tiveram ainda um encontro pessoal autêntico com Jesus Cristo.

{n}Acontece – Nos últimos anos temos presenciado o significativo crescimento do segmento evangélico no Brasil, a cada instante surge uma igreja nova, com suas doutrinas, uso e costumes. Ao que o senhor atribui esse crescimento?

Dom Maurício{/n} – Esse crescimento, não só dos evangélicos, se deve não tanto a algumas deficiências pastorais da Igreja católica, mas, sobretudo, ao alastramento e aprofundamento do fenômeno da modernidade e da pós-modernidade. Alguns sinais da modernidade e pós-modernidade são: secularismo, subjetivismo, relativismo, consumismo, imediatismo, hedonismo, entre tantos outros.

{n}Acontece – Inegavelmente, o papa Francisco tem um carisma todo especial e sente prazer em estar no meio do povo. Em sua opinião, Dom Maurício, o novo papa pode aumentar as vocações sacerdotais e fazer com que a igreja católica volte a ser o que era antes em número de fiéis e sacerdotes, não só no Brasil como no mundo?

Dom Maurício{/n} – Bem, ao contrário do número de fiéis, o número de padres no Brasil vem aumentando desde a década de 1990. Embora o número de fiéis diminua gradativamente, aumenta também gradual e significativamente a qualidade dos que vão permanecendo fiéis. Não há, porém, como negar que o Papa Francisco, com seu carisma e testemunho coerente de vida, provocará um bom aumento tanto do número de vocações ministeriais e religiosas como do número de fiéis.

{n}Acontece – Temas polêmicos que envolvem a igreja católica são relacionados ao uso do preservativo para evitar gravidez e o contágio de doenças sexualmente transmissíveis e o aborto. Como o senhor encara essas situações?

Dom Maurício{/n} – Ao interno da Igreja não são temas polêmicos. Quem tem fé conhece o valor da vida e da dignidade humana. Quem ama como Jesus Cristo nunca pensa apenas em si mesmo. Em tudo que faz procura sempre o bem do outro e o bem comum. Quem tem fé não se entrega ? libertinagem, ao hedonismo e outros “ismos”. Quem ama como Jesus prefere morrer do que matar ou ferir a vida e a dignidade humana. Acontece que, infelizmente, muitos mantêm apenas o título de cristão-católico. Na verdade não conhecem e não vivem a fé em comunidade e comunhão com toda a Igreja. Muitos outros, querendo a todo custo dizerem-secatólicos, desejam mudar a Bíblia, a Palavra de Deus e a fé, quando, na verdade, deveriam mudar de vida. A polêmica provém, portanto, de um mundo cada vez mais paganizado, materialista, consumista e ateu.

{n}Acontece – O padre Beto, de Bauru, foi excomungado da igreja por defender a união entre homossexuais. Qual é a sua opinião com relação a união homossexual, que está aumentando no Brasil?

Dom Maurício{/n} – Se por “união homossexual” o que se entende for um “casamento” então, contraria não só a natureza e a dignidade humana, mas também a fé bíblica e católica. As exigências da fé católica são iguais tanto para hetero como para homossexuais. A Igreja não é homofóbica. Acolhe a todos, qualquer que seja a condição de vida, mas de todos exige a conversão permanente no seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo como discípulos-missionários, em comunidade.

{n}Acontece – Para finalizar, Dom Maurício, o que é preciso fazer para ser considerado um bom cristão católico?

Dom Maurício{/n} – É preciso abrir-se cada vez mais a Cristo, por meio da vida comunitária e eclesial, usufruindo dos sacramentos que o próprio Jesus instituiu e confiou ? Igreja. Entre os sacramentos está o da “penitência” ou “confissão”. Isto significa que a Igreja não é constituída de anjos ou pessoas irrepreensíveis. Mas de pessoas que, tendo consciência da incapacidade de “salvarem-se” por si mesmas e com as próprias forças, reconhecem o amor a misericórdia de Deus, manifestados em na Cruz de Jesus e em sua Igreja Uma, Santa, Católica e Apostólica.

Fotos: Valéria Cuter

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