Agricultura orgânica ganha adeptos

A agricultura orgânica é um nicho que vem sendo ocupado pelos pequenos produtores e assentados na região de Bauru. O último levantamento, de março do Sindicato Rural de Bauru, contabiliza 16% da área ocupada por esse tipo de cultura composta por 17 municípios. Ainda são números tímidos, de acordo com Mauricio Lima Verde Guimarães, presidente da entidade patronal rural, mas está em expansão.

É uma atividade que deve crescer nos próximos anos, atesta a engenheira agrônoma Ana Paula Zimbardi Lombardi, consultora do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Sear), porque as pessoas buscam qualidade de vida.

Na região, no entorno de Bauru há 50 unidades de produção orgânica. No País são 13.345 produtores e o Estado de São Paulo é o terceiro da federação com 1.471 produtores orgânicos, o Paraná é o 1º, de acordo com dados do Ministério da Agricultura.

Pela dimensão continental do Brasil, ainda é um setor pequeno em relação à agricultura convencional.

A orgânica é caracterizada pelo não uso de defensivos agrícolas e agrotóxico. O consultor do Senar Marcelo Sambiase cita que, a rigor, o termo agricultura orgânica vem de “organismo agrícola” e não de matéria orgânica.

Fátima Rocha, do Assentamento Maracy no Distrito de Domélia no município de Agudos, conta que, antes de produzir nas técnicas da agricultura orgânica, já praticava o princípio devido as dificuldades econômicas. “A gente já não tinha dinheiro para comprar defensivo agrícola. Não foi difícil se adaptar à agricultura orgânica”, relata.

Sambiase admite que o problema do produto orgânico é o preço final. “Ela fica cara da porteira para fora. É um produto que é mais barato produzir da porteira para dentro, mas o sistema de comercialização do orgânico é caro, porque os volumes de venda são menores e as distâncias grandes”.

Em tempos de busca de vida saudável, esse tipo de agricultura usa da adubação verde com uso de leguminosas fixadoras de nitrogênio atmosférico.

É uma atividade familiar e de pequenos produtores. O ex-policial Francisco Eduardo Britto, 45 anos, e a arquiteta Tatiana Beletti Brito, 37, deixaram uma vida agitada da capital para arrendar uma pequena área, em Barra Bonita, batizada de Sítio do Bem. Os dois estão há um ano e meio nesse tipo de produção vendida de porta em porta no município.

Junto com o orgânico no mesmo local também tem estufa de hidroponia com cultivo de vários tipos de folhas.

Certificação é importante, afirma sindicato

O presidente do Sindicato Rural de Bauru, Mauricio Lima Verde Guimarães, alerta que a credibilidade da certificação do produto é importante e não basta ter o documento se não for comprovadamente orgânico.

“O fato de ser certificado é importante. Aqui em Bauru, 90% dos que vendem o produto não são orgânicos. A certificação é um documento que depende da credibilidade de quem está vendendo”, declarou o líder ruralista.

Guimarães cita, de exemplo, que na França foram cortados 35% dos produtos certificados, porque não eram orgânicos. “O pessoal fraudava. Falava que era certificado e não era. Na França o produtor era vendido para qualquer um. Não adianta fazer documento se não é autêntico”, ressalta.

Outro aspecto citado pelo presidente do Sindicato Rural é de que o produto orgânico tem uma perda de 30% a 40% a menos em relação ao produto convencional. “Isso já encarece no preço, porque vai colher menos. A certeza do orgânico é subjetiva. Todo lugar que você vai se diz que o produto é orgânico. Por isso é preciso ter a certificação”.

Guimarães admite que o setor passa por dificuldade, mas a tendência a médio e longo prazo é esse tipo de cultivo crescer. “Mesmo na Europa, que tem atividade intensa nesse sentido, o crescimento é muito pequeno por causa da produtividade. Quando se aplica o defensivo, o insumo e o adubo, você pode ter produtividade inacreditável. O orgânico não, está limitado”, comenta. Na última quinta-feira foi realizado evento em Bauru que abordou a questão da certificação de produto orgânico.

Casal troca capital por sítio ‘orgânico’

Pela estrada do Barreirinho toda asfaltada, após passar pequenas chácaras e canaviais, se chega ao endereço. Uma placa afixada no portão anuncia “Sítio do Bem”. O terreno é um pouco inclinado de 4 mil metros quadrados e a outra metade mais 4 mil cercada. Ao fundo se avista uma estufa de hidroponia e ao lado a plantação de couve-flor. É nesse espaço em Barra Bonita que o casal Francisco  Eduardo Brito da Silva, 45 anos, a esposa Tatiana Belletti Brito, 37, e o filho Enzo, 8, residem e cultivam agricultura orgânica.

Os dois moravam na capital. Cansados da cidade grande partiram para um local mais bucólico no Interior. Francisco é ex-policial, mas tem curso de técnico agrícola, e a esposa  é arquiteta. “Faço parte do êxodo urbano, mas vim para cá em busca de qualidade de vida”, exemplifica Francisco.

O sítio é arrendado de Irineu Bressan, antigo produtor de hortaliças de quem passou seus conhecimentos. A agricultura orgânica tem essa característica, não precisa de área muito grande para produzir.

Também possibilita no mesmo local vários tipos de práticas agrícolas. A hidroponia não faz parte da agricultura orgânica, mas a produção de alface e outras hortaliças se integram à propriedade, assim como o minhocário.

O produto orgânico por enquanto não tem certificação, mas segue todas as diretrizes. “Fica muito caro para a gente fazer a certificação”, conta Francisco. O sistema seria por auditoria: teria de contratar uma empresa especializada e isso tem custo. As outras alternativas são por Organização de Controle Social (OCS) que se enquadra mais a quem tem associação ou sistema participativo.

“O maior problema do orgânico é que a planta depende de adubação orgânica. Então, tem que ter esterco de galinha e bovino ou a torta de filtro da cana (resíduo do açúcar e do álcool) que alguns aqui utilizam e é excelente adubo. A ideia do orgânico é manter a planta vigorosa para que as pragas não infestem”, explica Francisco.

Toda a produção do “Sítio do Bem” é comercializada exclusivamente em Barra Bonita num sistema de pronta entrega em domicílio feito pelo próprio Francisco. A capacidade de produção é de uma tonelada ao mês de rúcula, chicória, agrião, couve-flor, alface e hortelã.

Tatiana Belletti admite que existe uma concorrência forte de outros produtores de fora da cidade. O casal já conseguiu a vender a supermercado, porém é muito competitivo.

Assentamento vai fornecer para a merenda

A agricultora Fátima Rocha, do Assentamento Maracy no Distrito de Domélia, município de Agudos, é uma das 48 famílias que produzem hortaliças em geral, legumes e frutas. Os produtos têm certificação pelo sistema Organização de Controle Social (OCS).

A partir de fevereiro do ano que vem os produtos vão ser vendidos à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e à merenda escolar de Agudos. “Vamos ser fornecedores de frutas e verduras”.

A produção no assentamento é bem variada como folhas em geral, dos quais alface, almeirão, rúcula, chicória, couve-flor, cheiro verde e legumes (cenoura, beterraba, mandioca, tomate orgânico, rabanete, berinjela). Cada um produz em seu lote. Fátima tem horta de 1.600 m2. O assentamento tem nove anos.

Segundo Fátima, não é difícil produzir sem defensivos agrícolas. “A gente já não tinha dinheiro para comprar defensivo agrícola. Não foi difícil se adaptar à agricultura orgânica. Já se virava com esterco, já compostava e deixava ‘curtir’ o esterco para virar adubo”, conta a assentada.

Fátima admite as dificuldades. “A gente vai aprendendo. Aquela ideia que o orgânico não cresce sem o defensivo já tiramos da cabeça. É possível produzir orgânico e bem.”

Uma estratégia é diversificar a produção, porque os programas governamentais pedem vários produtos. “Conforme vão pedindo vamos plantando”.

Fátima conta que já ocorre de pessoas e amigos procurarem o assentamento para comprar cestas. “Estão sentindo a diferença de uma verdura mais doce, bem diferente do convencional”.

Produção de orgânico tem perda 

O presidente do Sindicato Rural, Mauricio Lima Verde Guimarães, explica que o produto orgânico tem uma perda de 30% a 40% a menos em relação ao produto convencional. “Isso já encarece a produção, porque vai colher menos. A certeza do orgânico é subjetiva. Todo lugar que você vai se diz que o produto é orgânico. Por isso é preciso ter a certificação”.

Guimarães admite que o setor passa por uma dificuldade, mas a tendência a médio e longo prazo é essa atividade agrícola crescer. “Mesmo, na Europa que tem atividade intensa nesse sentido, o crescimento é muito pouco por causa da produtividade. Quando se aplica o defensivo, o insumo e o adubo, você pode ter produtividade inacreditável. O orgânico não, está limitado”, comenta.

Outra questão levantada por Guimarães é a dificuldade de qualificar o solo que não teve algum problema num período de 40 anos de ter qualquer tipo de insumo ou agrotóxico.

O presidente do Sindicato cita que é importante a certificação do produto. “Estamos batalhando muito para isso. Estamos fazendo vários cursos em parceria com o Sebrae. Na medida que certifica, o cara pode até burlar, mas a certificação ajuda a credibilidade do produto”.

Pelo levantamento do Sindicato Rural, composto de 17 municípios na região, de quatro meses de produção de folhas são 16% de área de produto orgânico. “É pouco, porque houve chuva e seca e as folhas têm um ciclo curto. Se vem uma chuva estraga, mas dentro de 90 dias o agricultor desse tipo de atividade já tem o produto de novo. É o ao contrário das culturas permanentes. O pessoal produz em estufa”.

‘Rotular’ o produto é importante

O instrutor do Senar Marcelo Sambiase explica que o primeiro passo na agricultura orgânica é “porteira para dentro”. É a produção e a adequação da propriedade à legislação brasileira. “Aquela propriedade que pretende comercializar o seu produto orgânico tem que estar de acordo com a Normativa 46”.

Essa adequação tem que estar de acordo com os aspectos ambientais, sociais e de normas de produção. O segundo passo, “a porteira para fora”: é ‘rotular’ o produto como orgânico. Há necessidade de uma autorização: a chamada certificação.

Para obter essa certificação há três formas: por auditoria, o produtor contrata uma empresa para fazer essa averiguação e comprovar que a propriedade está de acordo com a norma; a outra, é o sistema participativo, um grupo de pessoas forma uma associação (pessoa jurídica) que representa o dono perante a lei ou o cadastro individual de proprietário orgânico no Ministério da Agricultura; e a certificação por OCS (Organismo de Controle Social), do qual um fiscaliza e assina pelo outro, assim pode se cadastrar como produtor individual no Ministério da Agricultura. “São três formas de obter a certificação e com custos diferentes: quando você contrata uma empresa, ela cobra um valor pelo serviço.  Pelo sistema participativo os custos da pessoa jurídica são rateados, fica mais em conta. Pela OSC não tem custo, um olha pela propriedade do outro e ele faz cadastro individual que não gera custo”, explica o consultor.

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Sambiase ressalta que a certificação por OSC só pode ser praticada pelo consumidor final e não pode ser feita pelo distribuidor. “O produtor nesse caso tem uma restrição de mercado, mas pode entregar em qualquer programa do governo, merenda escolar, fazer feira, entregar cestas de alimento e venda direta ao público. Isso restringe um pouco o mercado mas a venda a distância precisa do selo. A alternativa de obtê-lo é pelo sistema de auditoria ou participativo”.

O instrutor explica que é um mercado em grande expansão, mas ainda o problema do produtor orgânico é o preço final muito caro. “Ele fica caro da porteira para fora. É um produto que é mais barato produzir (‘porteira para dentro’), mas o sistema de venda de comercialização do orgânico é caro, porque os volumes são menores e as distâncias são muito grandes”, afirma.

Outro fator, citado pelo especialista, é a política de comercialização dos supermercados. “Um tomate produzido por um produtor orgânico recebe R$ 4 pelo quilo e o consumidor paga R$ 14 o quilo. Tem um acréscimo, porque vai para o distribuidor, de lá vai para o supermercado e todo mundo vai dobrando o preço. Fica um produto muito caro. Nas feiras o produtor que vai fazer venda direita tem um preço um pouco melhor, mas não tem volume de venda para alavancar, é uma agricultura que não tem investimento, não tem dinheiro e nem financiamento”, ressalta.

O consultor cita que a cadeia produtiva tem muito pouco dinheiro, geralmente é o dinheiro do produtor e do consumidor. “Existe muito anúncio de financiamento para a agricultura orgânica, mas na prática não se vê isso acontecendo. Vai muito devagar nessa parte de estímulo com dinheiro financiado”, explica Sambiase.

Noventa por cento dos produtores no Brasil são pequenos agricultores. Sambiase ressalta que não é mais difícil o cultivo da agricultura orgânica. “É uma atividade de mais manejo, do qual precisa de mais mão de obra. Não tem política agrícola para estimular grandes produções. É totalmente possível. Há uma usina na região de Ribeirão Preto, a Native, que está com 30 mil hectares plantados de cana para produzir açúcar orgânico”.

Mundialmente o mercado cresce muito, principalmente nos Estados Unidos, Europa e Japão. Sambiase tem um sítio de 25 hectares no pé da Serra da Mantiqueira, onde ministra cursos que capacitam produtores rurais interessados na agricultura orgânica.

Qualidade de vida

A instrutora Ana Paula Zimbardi Lombardi, da Comissão Orgânica do Estado de São Paulo junto ao Ministério da Agricultura, cita que na região de Bauru há 50 unidades de produção orgânica por microrregião.

No Brasil são 13.345 produtores orgânicos. O Estado de São Paulo é o terceiro do País com 1.471 produtores orgânico. O 1º é o Estado do Paraná com 1.924. “O número de produtores orgânico está crescendo devido ao fato de as pessoas buscarem uma qualidade de vida em termos de alimentação e com relação a sua produção. O homem do campo está quereno qualidade de vida para se proteger com relação a utilização dos defensivos agrícolas”.

A engenheira agrônoma explica que a produção orgânica não utiliza sementes transgênicas e defensivos agrícolas. A produção prima pela sustentabilidade ambiental.

Segundo ela, para vender o produto como orgânico é obrigatório o produto ser certificado pelas vias legais.

Em Bauru há a certificadora OCS Você Social Orgânicos fundada em 2013. Em Agudos, tem outra no Assentamento Maracy batizada de OCS Amo a Vida – Prefiro Orgânicos fundada em 2015. Em Piratininga tem a OCS Canto e Cidade fundada em 2014.

Agricultura orgânica

O termo agricultura orgânica vem de “organismo agrícola” e não de matéria orgânica. “Muitas pessoas confundem, porque esse tipo de agricultura usa esterco e matéria orgânica. Na verdade é um sistema e produção integrada. A propriedade é um organismo: onde está integrado com o solo, a natureza, as árvores, os recursos naturais. Esse temo orgânico ficou mal interpretado. O sistema de produção é natural, ” diz Marcelo Simbiase.

No site do Ministério da Agricultura consta que na agricultura orgânica não é permitido o uso de substâncias que coloquem em risco a saúde humana e o meio ambiente. “Não são utilizados fertilizantes sintéticos solúveis, agrotóxicos e transgênicos. O Brasil, em função de possuir diferentes tipos de solo e clima, uma biodiversidade incrível aliada a uma grande diversidade cultural, é sem dúvida um dos países com maior potencial para o crescimento da produção orgânica.”

De acordo com a página eletrônica, para ser considerado orgânico, o produto tem que ser produzido em um ambiente de produção orgânica, onde se utiliza como base do processo produtivo os princípios agroecológicos que contemplam o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, respeitando as relações sociais e culturais.

Serviço

Sítio do Bem. Estrada do Barreirinho, Barra Bonita. Telefone: (14) 99682-5649

Fonte JCNet