Acidentes com pescadores por peixes peçonhentos é tema na FMB

Isleide Saraiva Rocha Moreira apresentou, na Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu, a dissertação de mestrado ‘Acidentes com pescadores por peixes traumatizantes e peçonhentos no baixo curso do rio Tietê, Estado de São Paulo.’ A pesquisa, na área de Saúde Coletiva, teve a orientação do professor Vidal Haddad Junior

O trabalho aponta inicialmente que acidentes causados por peixes peçonhentos provocam dor intensa e podem causar necrose no local do ferimento, como observado nas ferroadas de mandijubas (Pimelodus maculatus), surubins pintados (Pseudoplatystoma corruscans) e arraias (Potamotrygon spp.).

Os acidentes traumáticos com lacerações são causados por piranhas (Serrassalmus maculatus), traíras (Hoplias malabaricus), armaus (Pterodora spp.) e dourados (Salminus brasiliensis), enquanto corvinas (Plagioscon sp.) e tucunarés (Cichla spp.) provocam lesões traumáticas puntiformes.

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Foto Governo do Estado de São Paulo

A dissertação teve como objetivo mostrar como traumatismos e envenenamentos por peixes são acidentes ocupacionais comuns entre os pescadores brasileiros e necessitam ser avaliados para tratamento e prevenção dos agravos.

Nesse sentido, foi realizado um estudo descritivo por meio de um levantamento de acidentes por peixes traumáticos e peçonhentos em 40 pescadores de quatro municípios do terço final do rio Tietê, Estado de São Paulo: Itapura, Araçatuba, Santo Antônio do Aracanguá e Buritama. O estudo incluiu averiguação da presença de arraias fluviais nesta região, fato já descrito e pouco explorado, uma vez que envenenamentos por arraias causam acidentes graves e pouco conhecidos.

A pesquisa concluiu que a maioria dos pescadores não procurou assistência médica e tratou os ferimentos com ervas caseiras, pó de café, gasolina, urina e outros métodos populares. Uma grande proporção deles afirmou não ter realizado nenhum tratamento, enquanto outros se medicaram com aplicação de urina no ferimento.

O tratamento inicial preconizado é imergir o local afetado em água quente por 30 – 90 minutos (cerca de 50ºC), promovendo vasodilatação e neutralização da peçonha, o que provoca alívio da dor. Nenhum dos pescadores conhecia este tratamento.

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Região do Rio Bonito concentra muitos pescadores

Os pescadores da cidade de Buritama, Araçatuba e Santo Antônio do Aracanguá foram unânimes ao afirmar que não há arraias no rio Tietê e que estas existem apenas no rio Paraná. Entretanto, os pescadores da colônia de Itapura confirmam que existem arraias no terço final do rio Tietê desde a foz no rio Paraná.

Com estes dados, a pesquisadora concluiu que o pescador vê os acidentes e suas consequências como parte da sua profissão e não como eventos evitáveis, além de não ter conhecimento de medidas úteis para tratamento dos ferimentos ou prevenção destes.

Os acidentes por peixes acontecem com grande frequência nos pescadores da região. Entre eles, os bagres e mandis causam a maioria dos acidentes por peixes peçonhentos e estes se manifestam por dor intensa, inflamação e por vezes, úlceras cutâneas. Outros peixes causam lesões laceradas, com sangramento, inflamação, dor proporcional ao ferimento e úlceras crônicas.

Os pescadores utilizam medidas de tratamento populares e não conhecem as orientações para controlar a dor com uso de água quente. Atualmente, eles têm problemas com a introdução de espécies peçonhentas devido às modificações causadas no curso do rio pelas usinas hidroelétricas, pois o conhecimento popular que os ajudava na prevenção de acidentes quando da coleta de peixes não é mais aplicável.

Os pescadores do baixo Tietê necessitam de esclarecimentos sobre os tipos de peixes peçonhentos e traumatizantes da região onde trabalham e de possíveis peixes invasores da região.

É possível diminuir os acidentes e medicá-los com medidas simples, como o uso da água quente a 50ºC para inibir a ação das peçonhas, mas serão necessárias intervenções diretas nas colônias.

Segundo um dos pescadores, “temos um trabalho duro que exige acordar cedo, enfrentar o sol ou o frio, ficar acampado em matas, ter horário para armar e retirar redes e sempre ter a expectativa de que o próximo dia será melhor do que o outro”. Vários pescadores negaram acidentes por peixes, mas quando perguntamos sobre cicatrizes em suas mãos, ele disse: “Esta cicatriz foi de uma piranha que me mordeu, este dedo não mexe mais para cima, foi um ferrão de mandi.”

“O pescador encara seus ferimentos como parte da sua profissão e não como acidentes evitáveis. É essa a realidade que temos que mudar”, conclui a pesquisador.

Assessoria de Comunicação e Imprensa