A morte de João Pedro deve servir como alerta

 

O que aconteceu essa semana em Botucatu,  especificamente em um terreno do Jardim Monte Mor quando João Pedro, um garoto de 13 anos de idade, morreu eletrocutado, soltando pipa com uma linha chilena metalizada e cortante,  tem que servir como um grito de alerta para que os pais fiquem atentos quanto aos perigos do manuseio desse produto novo que chega ao mercado.

 

Antes tínhamos “apenas” a linha de cerol, nome atribuído a uma mistura de cola de sapateiro com vidro moído (ou limalha de ferro) que é aplicado em linhas de pipas.  A cola serve como aglomerante, enquanto o pó de vidro ou ferro serve como abrasivo e é muito resistente. O resultado é uma linha extremamente cortante, que pode trazer riscos (inclusive de morte) para quem aplica e para quem usa a linha.

 

Se por um lado a linha de cerol é fabricada artesanalmente, a (linha) chilena, como a que tirou a vida do garoto, é vendida em carretéis. A técnica é composta por quartzo moído e óxido de alumínio e esta sendo importado sem dificuldade alguma e o produto pode cortar até quatro vezes mais do que a linha nacional. Para se ter uma idéia do perigo, esse tipo de linha pode cortar uma aeronave ao meio.

 

Além disso, essas linhas cortantes trazem riscos para a vida selvagem (em especial pássaros), pedestres, skatistas, ciclistas, motociclistas e motoristas de carros conversíveis que acabam passando por áreas onde crianças e adolescentes empinam suas pipas.

No Brasil, a atividade envolvendo a substância, tem seu ápice no período de férias escolares, onde é bem maior a realização de disputas entre as crianças e adolescentes para ver quem consegue cortar a linha da pipa do outro. Quando (a linha) está esticada, dificilmente tem-se visão da mesma e, ao passar em velocidade ou não por ela, funcionará como uma perfeita guilhotina. Exagero? Com certeza não. Já são inúmeros os casos de lesões graves e até óbitos.

Mas o que me intriga é que se existem leis que proíbem uso e venda dessas linhas cortantes, como o vendedor fica impune? No meu entender quem vende linhas cortantes comete o mesmo crime daquele vende arma ou entorpecente. Com o agravante que no caso das linhas os clientes são crianças e adolescentes.

 

Perigo para a vida ou saúde de outrem está inserido no artigo 132 do nosso velho e ultrapassado Código Penal Brasileiro e os infratores podem pegar uma pena que varia de 3 meses a 1 ano de detenção. Caso aconteça lesão corporal ou morte, a pena aumenta substancialmente. Mas, cá entre nós, quem respeita essa lei? Vamos mais além: quem está preso por infringir essa lei?

 

Estamos chegando à época das férias escolares, onde a tendência é aumentar o número de crianças e adolescentes soltando pipas. As forças de segurança da cidade têm sim que fiscalizar, mas cabe, primeiramente, aos pais detectar se o que o filho está usando não venha a causar risco de acidentes ao semelhante. E tem que detectar se o local onde o filho vai soltar a pipa não está em meio à rede elétrica. O que não pode acontecer é termos registro de outras vítimas.

 

Ninguém vai trazer o João Pedro de volta. E ninguém em sã consciência, por mais frio que seja, pode acompanhar uma fatalidade como esta sem  ficar chocado. A gente entende que o menino tinha muito que viver, mas somos pequenos demais para entender o que separa a vida da morte. Sequer sabemos se iremos estar vivos no próximo minuto. Então, todo cuidado é pouco!