A difícil e controvertida vida de quem é fácil

Mulher de vida fácil. Assim são, popularmente, conhecidas as mulheres que se prostituem vendendo o corpo. Mas esse slogan de vida fácil está longe de ser verdadeiro. Isso porque as prostitutas passam em seu cotidiano, por diferentes situações e não são poucas as que são humilhadas pelos “clientes”. Também não são raros casos de espancamento, assassinatos e envolvimento com o uso e tráfico de entorpecentes.

Em Botucatu a Vila Santana (ou Vila Nova como ficou conhecida) teve seu tempo áureo nos anos 60, 70 e 80, no que diz respeito ? prostituição. Havia em diferentes pontos daquela vila, boates frequentadas por pessoas ligadas aos mais variados segmentos da sociedade de Botucatu e região. Entre as boates que existiam, podemos citar a da Cotinha, a da Tia Cida, da Mônica ou da Marina.

O movimento era constante e as noites reservavam encontros de pessoas que iam ao local, buscando sexo, ou mesmo por aqueles que queriam se embebedar em companhia feminina para esquecer dissabores causados pela perda da mulher amada. Até um ponto de táxi funcionava no local, para servir, exclusivamente, as prostitutas.

E foram muitas as prostitutas que ficaram conhecidas na cidade e eram citadas em conversas de clubes, bares, campos de futebol, velórios, festas, entre outros locais onde se aglomeravam grupos de homens. Por razões óbvias vamos omitir nomes, mas os saudosistas se lembram muito bem de cada uma delas.

A reportagem do Acontece esteve dialogando com uma mulher que viveu esse tempo áureo da Vila Santana. Muito inteligente e sagaz, ainda guardando traços que marcaram sua beleza, essa mulher de 66 anos, lembra como era ser prostituta naquela época. Ela aceitou falar com a reportagem fazendo a ressalva de que seu nome, nem sua foto fossem publicados.

Vamos chamá-la pelo nome fictício de Tânia. Na verdade, a entrevista foi mais um longo bate papo na mesa da casa de uma amiga e que custou a Tânia nada mais, nada menos, do que seis cigarros Free, uma coca-cola e dois copos de água. Vamos a ela:

{n}Acontece{/n} – Você não quer dar nenhum detalhe sobre você?

{n}Tânia{/n} – Não. Eu só falo com você com a promessa de que não serei identificada. Sabe como é, conheço muita gente, principalmente os homens mais maduros, com mais de 50 anos. Nenhum detalhe. Se eu falar muito, pode ter a certeza de que muitos deles vão se lembrar de mim. Por isso é melhor a gente ficar no sigilo. Ninguém tem nada com isso. Eu estava quieta no meu canto e foi você que me procurou…

{n}Acontece{/n} – Mais alguma coisa?

{n}Tânia{/n} – Sim!

{n}Acontece{/n} – Pode dizer…

{n}Tânia{/n} – Tira todo palavrão que eu falar…

{n}Acontece{/n} – Combinado! Se você disser palavrão eu troco por um adjetivo.

{n}Tânia{/n} – Então, tá legal…

{n}Acontece{/n} – Esse papo está aguçando minha curiosidade…

{n}Tânia{/n} – Mas, você não vai ouvir de minha boca nenhum nome. Se for isso que está insinuando. Fica só na sua imaginação.

{n}Acontece{/n} – Você não imagina como estou imaginando…

{n}Tânia{/n} – Sabe, acho que dá para contar nos dedos as mulheres daquele tempo que ainda estão morando em Botucatu. Muitas já morreram. Outras se mudaram. Mas elas, assim como eu, ficaram muito conhecidas…

{n}Acontece{/n} – É verdade. O problema é que você quer queira, quer não queira, é uma personalidade da cidade…

{n}Tânia{/n} – Não nasci aqui, mas vim para cá com meus 15 anos e pretendo morrer aqui. Não me considero nada disso que você falou. Mas não é preciso ficar citando o meu nome…

{n}Acontece{/n} – Tudo bem!

{n}Tânia{/n} – Gosto muito desta cidade…

{n}Acontece{/n} – E você viveu o tempo áureo da Vila Santana…

{n}Tânia{/n} – É verdade. Naquela época tudo era lindo na Vila Nova. Pra mim é Vila Nova..

{n}Acontece{/n} – Tudo bem!

{n}Tânia{/n} – Havia luzes, colorido e muita gente passeando pelas ruas. Mulheres lindas para o gosto do cliente. Cada casa tinha de quatro a dez mulheres. Aqui era tudo terra, sem asfalto, mas tinha brilho próprio. Um glamour especial. Tinha até um ponto de táxi, que servia, exclusivamente, as meninas. Elas só andavam de táxi. Até viajavam de táxi.

{n}Acontece{/n} – Famosas boates…

{n}Tânia{/n} – Tinha (a boate) da Cotinha, a da Tia Cida, da Mônica, da Marina. Que lindo era aquilo! As luzes vermelhas piscando. Parecia uma boate de luxo que naquela época só havia em Bauru. Aqui era uma cidade dentro da cidade de Botucatu. Uma cidade diferente, proibida, aonde cada um vinha para desfrutar de toda aquela beleza. Muitos chegavam ao anoitecer e só iam embora com o dia amanhecendo…

{n}Acontece{/n} – Você fala com empolgação…

{n}Tânia{/n} – (mostra o braço) Fico até arrepiada ao lembrar daquele tempo. Como era isso aqui. Que saudade que dá… Hoje só pobreza, só miséria. Poucas casas oferecem mulheres. Pode acreditar que naquela época ser prostituta em Botucatu era o auge. Hoje tudo mudou..Tinha travestis lindos, até gigolôs…

{n}Acontece{/n} – E como era a atuação da polícia nessa época?

{n}Tânia{/n} – Olha meu querido, a polícia, não tinha muito trabalho aqui, não. A gente tinha amizade com os policiais que faziam ronda. Embora fosse zona, poucos casos graves ocorriam. Geralmente eram brigas entre as meninas, por causa de fregueses e bebedeira. A relação com a polícia sempre foi normal, sem crises. Tinha até um policial que era gigolô…

{n}Acontece{/n} – Como é que é?

{n}Tânia{/n} – É verdade, mas isso, foi há 30 anos, não se esqueça. Hoje nem sei se ele está vivo. Se tiver vivo deve estar com seus 60 anos de idade, por aí… Ele era conhecido em razão de seu costume de usar colares e anéis brilhantes. Tinha predileção por ouro. Tinha uma amante e vinha quase todas as noites aqui. Caramba! Estou dando a ficha do cara! As meninas deram a ele um apelido, que não vou dizer aqui qual é. Já falei demais…

{n}Acontece{/n} – Até onde eu sei, um gigolô é sustentado pelas mulheres. Ou seja, vive dos programas que as mulheres fazem.

{n}Tânia{/n} – É isso mesmo! Ele tinha participação nos programas. Ele arranjava clientes para elas e tinha porcentagem nos programas.

{n}Acontece{/n} – Mas, você não disse que uma delas era amante dele?

{n}Tânia{/n} – E daí, meu querido?

{n}Acontece{/n} – O nome ou o tal apelido dessa pessoa, você não vai me dizer?

{n}Tânia{/n} – Digo, se você desligar o gravador. Aí a responsabilidade fica sendo sua…

{n}Acontece{/n} – Tá bom, eu desligo! Claro que eu desligo!
……………………….

{n}Acontece{/n} – Mudando de assunto, a Vila ainda é, relativamente, grande…

{n}Tânia{/n} – Mas, somente umas dez ou doze casas têm prostitutas, não sei com certeza. Não fico mais aqui. Só passo de vez em quando. Então, quem vem aqui hoje tem que saber onde vai entrar para evitar confusão. Tem que perguntar. Geralmente as mulheres procuram ficar nas calçadas ou nos bares. Agora têm aqueles que são clientes antigos, os clientes fixos com suas meninas. Eles não procuram outras, são fiéis.

{n}Acontece{/n} – Fiéis?

{n}Tânia{/n} – É sim! Muitos homens têm apenas uma mulher, a amante. E olha que se ele olhar pra outra sai confusão!

{n}Acontece{/n} – Mas, ela não saí com outros homens, caramba!

{n}Tânia{/n} – Mas, aí é profissão dela! O cara tem que entender isso e separar…

{n}Acontece{/n} – Olha Tânia, vamos voltar lá pros anos 70…

{n}Tânia{/n} – Deixa eu te falar uma coisa, porque sei que você não vai me perguntar isso. Você sabia que as prostitutas daquela época auxiliavam no orçamento mensal de muitas famílias da classe média da cidade?

{n}Acontece{/n} – Estou ouvindo…

{n}Tânia{/n} – Verdade pura! As famílias eram pagas para tomar conta das filhas e filhos das prostitutas. Cada uma tinha, pelo menos, um filho. E olha que havia naquela época mais de cem meninas que ganhavam a vida aqui. Como não se preveniam, acabavam engravidando tendo filhos, que não podiam ficar morando aqui. Muitos acabavam sendo adotados pelas famílias.

{n}Acontece{/n} – Também naquela época não havia o devido cuidado com o uso de camisinha…

{n}Tânia{/n} – Esse era o ponto negativo. O homem não admitia o uso de camisinha. Até hoje é assim. Só alguns se propunham a utilizar. Por isso sempre havia o perigo da contração de doenças venéreas ou a menina engravidar. Não se tinha a informação de hoje. Naquela época não existia a AIDS. Hoje nenhuma menina daqui aceita fazer sexo sem camisinha. Neste aspecto elas são mais prudentes do que aquelas do passado.

{n}Acontece{/n} – Afinal, onde estão as prostitutas de hoje?

{n}Tânia{/n} – Hoje? Em qualquer lugar você acha mulher se prostituindo, meu querido. Em muitos bares. Hoje é comum meninas aí com 13, 14 anos, se prostituindo. E não é só em Botucatu. Isso acontece em todo País. Aqui não se admitia e não se admite menores. A polícia está sempre fazendo ronda por aqui e ninguém quer se arriscar. Se existe alguma, eu não estou sabendo.

{n}Acontece{/n} – Aqui, na Vila Santana, além da prostituição, também é um local conhecido como um reduto de venda e uso e tráfico de entorpecente, onde a polícia executa operações rotineiras…

{n}Tânia{/n} – É verdade, existe esta fama. Mas, será que é só aqui? Será que aqui é o principal ponto, como dizem por aí? Não acredito. Que tem isso, todo mundo sabe. Que eu me lembre nunca foi apreendido uma grande quantidade de drogas com alguém por aqui. Na verdade a Vila ficou conhecida como o maior centro de prostituição da região. Eu aceito isso, mas não aceito que digam que aqui é o principal ponto de tráfico. Isso não!

{n}Acontece{/n} – Mas, além do tráfico de entorpecentes, já foram registrados assassinatos violentos…

{n}Tânia{/n} – Mas, meu caro, isso não acontece só aqui, entende? Parece que tudo que acontece de ruim hoje na cidade a culpa cai na Vila Nova. A Vila é discriminada. É preciso parar com isso! Aqui é um bairro como outro qualquer, que tem seus problemas, tem gente boa e gente ruim. Pode ter a certeza que a Vila Santana pode não ser o melhor bairro da cidade, mas também não é o pior.

{n}Acontece{/n} – E você, já experimentou algum tipo de droga?

{n}Tânia{/n} – Já, sim. Mas a minha droga sempre foi o cigarro e a bebida (cerveja e cuba libre). Agora diminui bem, mas não consigo largar o cigarro. Fumo desde os 13 anos. Mas, droga pesada mesmo, nunca experimentei. Só uma maconhazinha de vez em quando. Já vi gente no fundo do poço morrer por excesso de droga. Não é uma visão bonita. Eu nunca passei dos limites, por isso passei dos 60, não é?

{n}Acontece{/n} – Você fuma um bocado…

{n}Tânia{/n} – É verdade! Quase dois maços por dia… Já larguei, já voltei. Eu e o cigarro somos íntimos. Um não pode ficar longe do outro (risos). Olha ponta dos meus dedos como estão amarelados. Isso é nicotina do cigarro. Vou morrer com um cigarro na boca…

{n}Acontece{/n} – Você acha que a prostituição está com os dias contados aqui na Vila Santana, que, como você mesmo disse, vai continuar sendo o local mais conhecido da cidade, neste aspecto?

{n}Tânia{/n} – Não, não está. Sempre vai haver prostituição aqui ou em todo lugar. O que acontece é que antes quem queria buscar nova experiência no sexo procurava a Vila Nova, a popular zona. Hoje a prostituição está espalhada pelas esquinas e jardins da cidade. Qualquer lugar tem mulher fazendo programa. Eu já disse: tem menininha aí de pouca idade que já está nesta vida. A televisão, o rádio, o jornal, noticiam isso todos os dias.

{n}Acontece{/n} – É verdade que toda mulher entra na prostituição em razão de algum dissabor que teve na vida? Amoroso, por exemplo?

{n}Tânia{/n} – Isso é uma besteira. Nem pense nisso. A grande maioria que entra nesta vida é para sustentar a si própria ou sustentar a família, os filhos. Necessidade pura. Mas, também, a mulher entra na prostituição por vários outros motivos. Até por safadeza, mesmo. Essa desilusão amorosa que você disse pode ser um deles. Mas, a maioria, posso assegurar, entra por necessidade mesmo! De dez, pelo menos sete, entraram nessa profissão, não por vontade própria, mas sim por falta de oportunidade melhor.

{n}Acontece{/n} – Não sei se é bem assim…

{n}Tânia{/n} – É sim senhor! É sim! Você pensa que é fácil viver essa vida? É nada! Olha, é muito engraçado isso, viu? O que se pensa por aí é que a mulher se prostitui porque é sem vergonha, porque gosta da coisa, de abrir as pernas para qualquer um. Não é assim não! Tem lá aquelas que gostam, mesmo, mas a maioria detesta viver nesta vida. Vive porque precisa! Não é dando risada! É uma profissão ingrata! Você não sabe a dificuldade que é isso! Falar mal dessas meninas é muito fácil, mas ninguém se preocupa em saber por que entraram nesta vida. É isso que me enerva!

{n}Acontece{/n} – Calma, mulher!

{n}Tânia{/n} – É que isso é muito chato. Muito chato mesmo! Muita gente fala mal dessas meninas, sem conhecer. Isso é uma profissão, sabia?

{n}Acontece{/n} – Sei, sim…

{n}Tânia{/n} – Então, a televisão nos coloca como marginais. Por isso tenho saudade daquele tempo, quando havia mais respeito.

{n}Acontece{/n} – Isso sem falar…

{n}Tânia{/n} – Peraí! Deixa eu terminar agora!

{n}Acontece{/n} – Opa!

{n}Tânia{/n} – Antigamente, para se fazer um programa era preciso procurar a zona, que era local restrito e proibido para menores. Hoje não. Tem menina fazendo programa em tudo que é lugar e passeia de bunda de fora no centro da cidade para chamar a atenção. Naquela época, era proibido homens menores de idade, passearem por aqui. Eu disse passearem. A polícia dava em cima, mesmo. Você sabia disso?

{n}Acontece{/n} – Sabia sim…

{n}Tânia{/n} – Então! Ah!

{n}Acontece{/n} – Esse papo me desconcentrou. Mas, vamos voltar ao assunto e destacar que a mulher prostituta se encontra com diferentes parceiros, de diferentes personalidades…

{n}Tânia{/n} – É isso que eu quero dizer! É bêbado, é gente que fede porque não toma banho, é drogado, é bandido, é político, é pedreiro, é empresário, é doutor. Enfim, é tudo! O cara casado vai buscar na zona o que não encontra em casa.

{n}Acontece{/n} – Ou o que não faz em casa…

{n}Tânia{/n} – Isso! Tá vendo? Essa é a verdade.

{n}Acontece{/n} – Só fiz um comentário…

{n}Tânia{/n} – E está certo! É isso mesmo! E não se esqueça que a prostituta não pode escolher seus clientes. Não tem essa! Os clientes é que as escolhem. A prostituta não pode fazer distinção de credo, raça ou cor, pois o dinheiro vale igual para todo mundo. Pagou, levou. Se ela for preconceituosa, vai pagar por isso. Ela tem é que ter sorte para acertar um programa. Não pode escolher o programa.

{n}Acontece{/n} – E não topar com um maníaco…

{n}Tânia{/n} – É por aí. Tá vendo? Quem pensa que é fácil é porque nunca viveu. Ficar do outro lado da cortina é muito fácil. O duro é ter que entrar para encenar a peça. Você me entende?

{n}Acontece{/n} – Acho que entendo…

{n}Tânia{/n} – E sem falar que os clientes estão diminuindo cada vez mais. Sabe a que horas o bar tem que fechar, hoje? Às 10 horas (da noite). Antes, esse era o horário em que a noite começava. Eu entendo que ninguém nesse mundo vai acabar com a prostituição. Mas, estão conseguindo acabar com os pontos de prostituição. Hoje se marca programas por jornal, rádio, TV, internet…

{n}Acontece{/n} – É verdade…

{n}Tãnia{/n} – Então…

{n}Acontece{/n} – Bem, Tânia, acho que já está de bom tamanho. Quero lhe agradecer por ter me dado esta entrevista e deixar você ? vontade para dizer o que quiser, da maneira que achar conveniente. Só não vale me xingar muito…

{n}Tânia{/n} – O que é isso, meu querido! Você foi legal. Só lhe peço que não cite o meu nome verdadeiro. Se bem que muita gente vai saber. Sobraram poucas mulheres que viveram aquela fase áurea da Vila Nova e que ainda estão vivas para contar a história. Venha sempre que quiser…Não estou morando aqui, mas estou sempre por aqui…

{n}Acontece{/n} – Negócios?

{n}Tânia{/n} – Mais ou menos…

{n}Acontece{/n} – Tenho a certeza de que esse nosso papo terá muito boa repercussão. Mas pode ficar tranquila que não citarei seu nome verdadeiro. Vou fazer exatamente aquilo que combinamos. Posso chamá-la de Tânia?

{n}Tânia{/n} – Tânia? Que diferente do meu. Mas, tudo bem!

{n}Acontece{/n} – Muito obrigado!

{n}Tânia{/n} – Posso eu agora te fazer uma pergunta? Você publica se quiser…

{n}Acontece{/n} – Claro!

{n}Tânia{/n} – Você chegou a conhecer a zona naquela época do glamour das boates e das luzes?

{n}Acontece{/n} – Eu era um jovem curioso, afoito, com o rosto coberto por espinhas e cravos, saindo da adolescência, mas conheci, sim…

{n}Tânia{/n} – Então tá! (risos)

{n}Acontece{/n} – Então, tá! (risos)