Zé Varoli: um goleiro que fez história de Botucatu

Por:  Jair Pereira de Souza

 

Por todos os times que passou no amador em Botucatu, José Ferrúcio Varoli Aria foi campeão. Jogou pela Associação Atlética Ferroviária (AAF), Associação Atlética Botucatuense (AAB), Brasil de Vila Maria, Inca, Rodoviário, e também foi campeão do Amador do Estado pelo América de São Manuel. Seu currículo como jogador é de um campeão porque sempre foi um atleta que se dedicava aos treinamentos com muita seriedade. Este grande talento que marcou época no futebol de Botucatu, em entrevista contou um pouco de sua trajetória futebolística.

 

Acontece – Varoli cite um momento que você nunca esquece e que ficou marcado na sua memória em sua carreira como jogador

Varoli – Tive muitos momentos, mas o que marcou muito foi quando fui escalado pelo técnico da AAB, que era o Valeriano, para jogar no profissional. Era uma terça feira e eu estava treinando quando ele me chamou do lado e disse:  “Varoli treina bem esta semana que domingo vou precisar de você”.  Muito friamente disse tudo bem, virei as costas e retornei para os treinamentos e percebi que ele foi conversar com os outros jogadores e disse: “O Varoli nem ligou, parece que não deu nenhuma importância”. Apesar de aquele jogo ser muito importante e o meu primeiro como profissional para mim foi uma coisa normal, porque nunca tive medo de nada e sempre fui um cara frio neste aspecto. Chegou domingo e fui escalado como titular do time, isto porque os dois goleiros oficiais estavam machucados que eram o Galvani e o Cláudio. O Valeriano me deu toda a orientação e fomos para o jogo contra o time da Usina São João de Araras que estava em primeiro lugar da segunda divisão e a AAB estava em segundo. Chovia muito e os jogadores chutavam muito de longe o que me obrigou a fazer muitas defesas. Um primeiro tempo excelente e no segundo tempo fui o homem do jogo por causa de uma jogada que o atacante entrou sozinho e pulei no pé dele e impedi o gol. Ganhamos o jogo de 1×0. Foi um momento de muita alegria para mim que trago sempre na minha lembrança.

 

Acontece – Agora me fala um momento que não foi bom.

Varoli – Foi na decisão do Campeonato Amador de 1979 contra Pardinho. Neste jogo fiz uma defesa espetacular de um chute do jogador Daco quase na área pequena e joguei a bola para escanteio. Logo em seguida colhi a bola do escanteio e vi que o Joel Galhardo estava caído na área machucado. Então minha intenção foi chutar a bola para fora e quando fiz isto a bola pegou nos três dedos e foi em direção ao jogador de Pardinho que era o Celestrim. Ele pegou um chute de “bate-pronto” e fiquei parado na marca de pênalti só olhando a bola cair atrás de mim para dentro do gol. Perdemos por 1×0 e o campeonato. A Ferroviária estava lotada, até hoje o pessoal de Pardinho lembra deste jogo e tem o Zé Varoli como o principal ator do filme. Este foi o momento mais triste na minha carreira. Naquele dia a felicidade foi do Celestrim. 

 

Acontece – Você poderia nos descrever uma defesa que você fez que foi muito importante na sua carreira?

Varoli – Foi em 1974 eu jogava pelo Inca e fomos enfrentar a Vila Maria numa semifinal na casa deles onde vencer era quase impossível. Apenas com o empate a Vila seria campeã. Em outro jogo semifinal a Ferroviária enfrentava o Rodoviário. Neste jogo o Inca estava ganhando de 2×1 e faltando poucos minutos para acabar o jogo, numa bola cruzada na nossa área ela sobrou para o Moisés e vi que ele olhou para a bola e não olhou para mim na hora do chute. Então, antes de ele chutar ,arrisquei um canto e pulei, para minha felicidade ele chutou a bola no canto que pulei e ela bateu na minha mão. Com essa defesa ganhamos o jogo por 2×1 e fomos para a final contra o Rodoviário que também ganhou da Ferroviária. Na final no jogo normal foi 1×1 e a decisão foi para os pênaltis e quem cobrou para o Rodoviário foi o falecido Bira.Dos cinco pênaltis defendi quatro e fomos campeões.

 

Acontece – Gostaria que você descrevesse um gol que você sofreu que foi uma falha sua.

Varoli – Foi num jogo na Ferroviária. Aconteceu uma falta e quem bateu foi o Pibo da Vila Maria, na cobrança a bola veio na minha direção e antes da bola chegar fiquei com a mão estendida e olhando para quem iria passar a bola e nesta distração a bola passou pelo meio das minhas mãos. Isto nunca pode acontecer o goleiro tem que estar sempre atento e não pode falar:  “Eu não esperava este chute ou não esperava esta cabeçada”. Então por causa da distração tomei um frango que não poderia ter tomado. Uma coisa que ficou marcado também neste gol que tomei foi ter escutado a risada do radialista Plínio Paganini que transmitia o jogo da cabine de imprensa.

  

Acontece – Você tinha o sonho de um dia ser jogador profissional e jogar num grande time?

Varoli – Não! Gostava é de jogar futebol por puro prazer e desde criança meu sonho era ser goleiro tanto é que aos 8 anos de idade saia da escola e ia no campo do Independente que era um “poeirão” só, chão de terra. Quando não tinha bola de borracha brincava com bola de papel mesmo. Desde esta época o futebol era minha paixão e é até hoje, com 68 anos de idade, ainda “bato” minha bolinha, não como goleiro porque não posso fazer hoje o que fazia senão me machuco. Brinco como centroavante. Sempre fui apaixonado pelo futebol,  mas ser profissional nunca quis. Joguei algumas partidas pela AAF e AAB, tive oportunidade para jogar no Palmeiras e também em Sorocaba, mas não quis. Nesta época já estava na Faculdade e queria ser professor. Há 45 anos atrás o Palmeiras veio na AAB com seu time misto e neste jogo fiz grandes defesas. Jogou pelo palmeiras, Liminha, Humberto, Nei e o goleiro era Oberdan Catane. Fui destaque pelas defesas que fiz e por causa deste jogo recebi o convite para ir treinar no Palmeiras, mas não fui porque queria é jogar futebol e não ser jogador profissional. Mesmo assim tenho uma história no futebol muito bonita. 

 

Acontece – Cite um jogador que jogou ao seu lado que você o considera como um dos melhores

Varoli – Quando comecei a jogar no amador este jogador já era profissional pela AAF. Eu tinha 15 anos e ele 20 e sempre me incentivou e me respeitou tratando-me com muita dignidade. Foi um jogador dedicado que tinha muita técnica e um ótimo preparo físico. Para mim um dos maiores craques do futebol de campo e salão que passou pela história de Botucatu. Seu nome: Ademar Messias.