Zague:o atleta que enfrentou o maior time do mundo

Por: Jair Pereira de Souza

 

Nossa intenção em entrevistar estes grandes jogadores do futebol de Botucatu é fazer uma homenagem a cada um deles, pelo que fizeram pelo esporte. Se fôssemos falar de tudo o que estes craques fizeram dentro dos campos de Botucatu e região teríamos que escrever um livro da história de cada um. O jornal Acontece Botucatu através destas entrevistas tem contado um pouquinho da trajetória futebolística de cada um, como forma de homenageá-los.

Wilson Evangelista de Oliveira, conhecido como Zague,  não poderia ficar fora desta lista de grandes craques que brilharam nos campos de Botucatu e região. No profissional, atuando pelo Paulista de Jundiaí, enfrentou o grande time do Santos que tinha no ataque: Durval, Mengalvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

Foi um jogador disciplinado e sério com um preparo físico invejável, uma rapidez de raciocínio, que quando a bola chegava aos seus pés já sabia o que ia fazer com ela. Fazia muitos gols de cabeça pela impulsão e sempre mantinha os olhos abertos. Este grande talento do futebol de Botucatu, em entrevista contou um pouco de sua trajetória futebolística.

 

Acontece – Zague, como foi seu inicio no futebol?

Zague – Nasci com uma tendência para jogar futebol. Desde criança queria imitar os jogadores de época, mesmo no amador do time do Bairro Alto que tinha jogadores que eu admirava e foram espelhos para mim, pessoas que passaram pela minha amizade e pela minha vida. Naquela época em que o Campeonato Amador de Botucatu era muito aguerrido, olhava muito estes jogadores e pensava comigo mesmo: “Se estes caras jogam por que, não posso jogar? Assim, ali perto de minha casa, num campinho comecei dar meus passos como jogador  e meu primeiro campeonato foi no infantil do Bairro Alto. No amador joguei pelo Lageado onde fui campeão por três vezes e também pela Associação Atlética Botucatuense (AAB) e campeão uma vez pelo  América de São Manuel, disputando o Campeonato Amador do Estado. Como profissional joguei dois anos pelo Paulista de Jundiaí.

 

 

Acontece – Cite um momento na sua trajetória futebolística que ficou marcado na sua memória e que foi de muita emoção. 

Zague – Foi quando cheguei a Jundiaí para começar minha carreira como jogador profissional numa segunda-feira e na sexta-feira meu contrato com o Paulista já estava assinado, assim como minha inscrição na Federação Paulista de Futebol  (FPF). Já no domingo entrei como titular contra o Taubaté. Neste jogo fiz meu primeiro gol como profissional e ganhamos o jogo de 4×1. O gol saiu de uma enfiada de bola do Ubiratã. Ganhei a disputa com o zagueiro adversário e toquei na saída do goleiro. Este foi meu primeiro gol como profissional e que marcou muito.

 

Acontece – Agora cite um momento que foi negativo.

Zague – Foi num jogo em Araraquara contra a Ferroviária. Estava no auge de minha carreira, muito bem preparado fisicamente e entrosado com o time. Numa disputa de bola no alto com o goleiro recebi uma violenta cotovelada que causou sério ferimento em minha cabeça. Tentei voltar no segundo tempo, mas não deu para continuar devido a gravidade da lesão. Foram seis pontos. Perdemos o jogo de 1×0 quando precisávamos ganhar para obter nossa classificação.

 

Acontece – Você poderia descrever um gol que você considera um dos mais belos que você fez?

Zague – Era uma partida sem muita importância, fora de Botucatu, quando jogava pelo Mais de 30. Recebi um cruzamento do Geraldão Galerano e a bola veio muito forte na meia lua da área grande. Vim correndo de encontro com a bola e de cabeça fiz o gol por cima do goleiro. Nunca vi um gol de cabeça feito fora da área grande em todo este tempo de futebol. Esse gol permanece em minha mente.

 

Acontece – Você chegou onde muitos jogadores queriam, ou seja,  alcançar o profissionalismo e foi sondado para jogar em grandes clubes do Brasil. Porque não deu continuidade em sua carreira e jogou apenas dois anos no Paulista?

Zague – Jair, naquela época o jogador não era tão valorizado como hoje. Fui sim procurado por um grande time do Rio Grande do Sul, mas resolvi ficar em Botucatu e terminar meus estudos. Em novembro de 1966 sai do Paulista e em abril de 1967 entrei na Neiva (Embraer) onde fiquei 30 anos até me aposentar. Na época deixei do futebol profissional e não me arrependi, pois optei pelo melhor caminho. Tenho certeza absoluta disto. 

 

Acontece – Você poderia nos dizer qual jogador no seu conceito você considera um dos melhores que jogou com você em Botucatu?

Zague – Para mim o melhor foi o Nivaldo Calônego. Esse jogador tinha todas as condições de ser um excelente jogador profissional e vestir a camisa de um grande time. Tinha muita habilidade, lançamentos precisos e intimidade com a bola.

 

Acontece – Você falando do Zague, qual a maior qualidade como jogador?

Zague – Tinha um ótimo preparo físico, era rápido na movimentação e também no raciocínio. Quando a bola chegava já sabia o que ia fazer com ela, se ia passar para o companheiro mais bem colocado ou partir em direção ao gol e bater na primeira brecha que via. Tinha boa impulsão, cabeceava de olhos abertos e fiz muitos gols assim. Cheguei ao profissional  porque tinha muitas qualidades aperfeiçoadas pelo Hélio Mafia que foi o preparador físico do SE Palmeiras e me ensinou todos os fundamentos que um jogador tem que saber

 

Acontece – Você chegou a jogar contra o grande time do Santos. O Pelé estava em campo nesta partida?

Zague – Sim! Joguei pelo Paulista e perdemos o jogo por 2×0. O Santos jogou com o time completo e no ataque tinha Durval, Mengalvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Dava gosto ver estes jogadores atuando. No primeiro tempo praticamente só assisti. No intervalo o técnico me chamou atenção e perguntou o que estava acontecendo comigo. Voltei para o segundo tempo e dei tudo de mim. Numa jogada de cabeça quase fiz o gol, depois de o goleiro Gilmar estar batido. O Joel que jogou também na Seleção Brasileira tirou a bola em cima da linha do gol. Esse lance saiu até em um grande jornal da capital paulista, com foto e tudo.

 

Acontece – Você, atualmente, com seus 74 anos ainda  joga  futebol?

Zague – Jogo com o pessoal do Rebola todos os sábados, onde são registradas todas as atividades dos jogadores. Tiram fotografias e é feito uma eleição do melhor jogador do dia e já fui eleito jogando de volante. Então, ainda consigo jogar um pouco e faço academia duas vezes por semana para estar bem para cada jogo.