Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014  

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04/01/2011
Cirurgia inédita, desenvolvida pela FMB, pode resolver impotência



Vencer um câncer, e ganhar a impotência sexual. Eis uma seqüela dramática para a maioria dos pacientes que enfrentam a retirada da próstata. Preserva-se assim a vida, mas de maneira incompleta e a um custo alto. Para tentar resolver tal condição, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp estão prestes a dar inicio a procedimentos cirúrgicos inéditos para reverter a impotência de origem nervosa.

A completa retirada da próstata (prostatectomia radical) é o tratamento predominante contra a impressionante estatística dos casos de tumor nesta glândula - um dentre oito homens passará pelo câncer! Levantamentos apontam que entre 40% e 60% dos pacientes que passam por esta cirurgia perdem a “potência” sexual por causa de danos provocados aos nervos responsáveis pela ereção.

De acordo com o urologista Dr. José Carlos Souza Trindade, um dos propositores da pesquisa, o ramo que inerva a região do pênis responsável pela ereção (corpos cavernosos) é bem delicado, além de estar intimamente relacionado à próstata. “Essa condição anatômica torna bastante frequente os quadros de impotência posteriores à retirada da glândula, o que gera uma condição bastante incomoda em termos psicológicos para o paciente”, justifica o médico.

Para superar essa queda da conexão nervosa, muitas vezes inevitável, os professores da FMB propõem a construção de uma “rota alternativa” para os impulsos elétricos. Eles devem sair da medula espinhal e chegar aos corpos cavernosos promovendo a dilatação dos vasos sanguíneos e consequente enrijecimento do pênis.
A técnica cirúrgica foi desenvolvida e apresentada em 1992 por outro autor do projeto, Dr. Fausto Viterbo, como sua tese de doutorado, e tem um histórico de sucesso. Ela tem sido aplicada a outras situações de recuperação funcional de órgãos e tecidos: paralisia facial, restauração da sensibilidade de diferentes regiões do corpo, incluindo pacientes paraplégicos, além de restauração de movimentos das cordas vocais.

Com o nome de “Neurorrafia Término-Lateral” (NTL), o método pode ser resumido à realização de inserções de tiras de nervos (retirados da perna do próprio paciente), entre a extremidade do ramo que deixou de receber impulsos e a porção lateral de um nervo intacto e agora doador de fibras. Dessa forma, uma “ponte” nervosa é costurada e passa a funcionar como caminho para que as informações atinjam os órgãos de destino, antes isolados, e, agora reinervados, para execução novamente de suas funções naturais.

Viterbo explica que a chave para o êxito da técnica é a neuroplasticidade, ou seja, uma reorganização da arquitetura funcional nervosa de acordo com as novas condições de estimulação dos nervos. Embora seja uma alteração ainda pouco explicada pela ciência, sabe-se que parte das fibras do nervo doador passa a transmitir os impulsos necessários para a execução da função perdida. Dessa forma, o sistema nervoso aprende, aos poucos, a “nova rota” e o órgão ou tecido readquire vida normal na maioria dos casos (cerca de 80%).

Os pesquisadores puderam, então, delimitar um problema importante- a disfunção erétil- após a retirada da próstata- e dispunham de uma possível solução (a técnica de NTL). Elaboraram assim o projeto “Reinervação peniana para restaurar a função erétil”.

Este foi aprovado recentemente pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e está em fase de seleção de pacientes dispostos a testar o método. Os pesquisadores pretendem aplicar a técnica inicialmente em dez pacientes que estejam há pelo menos dois anos sem função erétil depois da prostatectomia radical e que tenham entre 45 e 70 anos.

De acordo com o grupo de pesquisadores, que inclui além Trindade e Viterbo, o docente Dr. José Carlos Souza Trindade Filho, a cirurgia deve levar cerca de duas horas e é de baixa complexidade com perda de sangue mínima. Além disso, eles lembram que a técnica não danifica os nervos funcionalmente normais do paciente, uma vez que a sutura é lateral e não requer cortes nas fibras. “O risco é mínimo ao paciente e o ganho pode ser máximo”, considera Trindade.

Serão realizadas, então, quatro “pontes” nervosas e, para tanto, foram escolhidos como doadores de fibras o nervo femoral (em duas conexões), um ramo do nervo genito-femoral e outro do ílio-inguinal-nervo que passa pela bacia. Três dessas ligações são com o nervo dorsal do pênis e a outra com o corpo cavernoso (veja ilustração).

“Se conseguimos recuperar sorrisos e as expressões faciais completas, há ótimas chances de conseguirmos resolver a impotência de origem nervosa”, considera Viterbo. A confiança no sucesso do procedimento e na recuperação da ereção nos seis meses após a cirurgia é grande. Isso porque, além da NTL ter permitido reinervação satisfatória em outras situações, os nervos foram criteriosamente selecionados. Eles estão próximos do pênis e dois deles (gênito-femural e ílio-inguinal) tem a mesma origem na medula que os nervos eretores.

Dr. Trindade Filho lembra que a impotência é uma grave seqüela da retirada da próstata do ponto de vista de convívio e harmonia pessoal e os pacientes podem tentar alternativas para tratar a disfunção erétil: injeções de substâncias vasodilatadoras, implante de próteses penianas e dispositivos que fazem vácuo provocando a irrigação. Entretanto, o pesquisador argumenta, a partir de sua prática clínica, que são “métodos terapêuticos freqüentemente insatisfatórios do ponto de vista psicológico, e podem não possibilitar um ato sexual plenamente gratificante”.

O ineditismo da proposta pode trazer, assim, um importante impacto psico-social para a saúde integral dos pacientes, uma vez que oferece, com baixo risco, uma nova tentativa de resolver a sequela mais importante de uma das neoplasias mais freqüentes dos homens. “Estamos dando o primeiro passo com a proposta da cirurgia experimental”, considera Trindade e avalia que a pesquisa poderá contribuir para a vitória completa contra o câncer de próstata, ou seja, sem perturbar a vida sexual e psicológica de muitos homens.

Fonte: Felipe Modenese - Especial para o Jornal Acontece
Fotos: Flávio Fogueral
















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