Senado discute fim do “ç”, “ch” e “ss” na língua portuguesa

“A Comisão de Educasão, Cultura e Esporte (CE) do Senado está debatendo uma proposta que viza modificar algumas regras da língua portugeza”.

É isso mesmo. Se um estudo que tramita no Senado chegar a valer, a primeira frase desta notícia seria escrita desse jeito mesmo. O correto, atualmente, é:  “ Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado está debatendo uma proposta que visa modificar algumas regras da língua portuguesa”.

Um Grupo de Trabalho (GT) dentro da Comissão, presidida pelo senador Cyro Miranda (PSDB-GO), tem como objetivo buscar formas para facilitar o aprendizado da ortografia nos países lusófonos (conjunto de identidades culturais existentes em países falantes da língua portuguesa) – e propõe outra reforma ortográfica.

A proposta, criada pelo professor Ernani Pimentel, é acabar com o uso da letra “h” antes das palavras, do “ç”, do “ss”, “sc” e “xc” (que seriam substituídos pelo “s” simples), do hífen, do dígrafo  “ch” (que seria substituído pelo “x”). Palavras também passariam e ser escritas como o fonema aponta como o “x” e o “s” com som de “z”. A letra “u” após o “g” e “q” e antes de “e” e “i” também seria suprimido.

 

Exemplos da mudança

 

– Homem viraria omem  – Fim da letra “h” antes das palavras

– Faça viraria fasa  – Fim do “ç”

– Passa viraria pasa  – Fim do “SS”

– Acrescentar viraria acresentar  – Fim do “SC”

– Excelência viraria eselênsia  – Fim do “xc” e do “c” com som de “s” (como em cenoura)

– Couve-flor perderia o “tracinho”  – Hífen deixaria de existir

– Chuva viraria xuva  – Fim do “ch”

– Exame viraria ezame  – Fim do “x” com som de “z”

– Asa viraria aza  – Fim do “s” com som de “z”

– Quero viraria qero  – Fim do “u” após o “g” e “q”, antes do “e” e do “i”

 

Pimentel aponta que essas mudanças acarretariam em economia com a educação no país: “Em vez das atuais 400 horas/aula de ortografia ministradas desde o início do fundamental até o fim do ensino médio, sejam utilizadas apenas (ou em torno de) 150”, diz.

O professor disse que o convite para integrar o Grupo de Trabalho (que também é liderado pelo professor Pasquale Cipro Neto) surgiu após audiência pública de 2009 em que foram tecidas críticas ao acordo ortográfico que entrou em vigor naquele ano. "Na época escrevi até um livro sobre o assunto. Em 2012, começamos a discutir simplificações da ortografia. Fomos a Portugal e vamos a Angola e Moçambique discutir com professores sobre o assunto".

Pimentel também apontou que há um espaço para sugestões de simplificação do idioma. “No site Simplificando a Ortografia estamos abertos a receber sugestões de mudanças e fizemos um abaixo-assinado de apoio às propostas”. Até o momento, o site tem 33 mil propostas.

 

Ridículas e patéticas

 

Apesar dos argumentos de quem propõe as mudanças, as medidas têm rejeição por parte de alguns linguistas. O filólogo e professor da UnB (Universidade de Brasília), Marcos Bagno, não economiza críticas ao falar da proposta: “São ridículas, patéticas e merecem todo o desprezo da comunidade de linguistas do Brasil”, diz.

Para Bagno, o argumento de que as novas mudanças facilitariam o aprendizado não é válido. “Aprender a escrever em chinês é muito mais complicado do que aprender a escrever em português, e 94% dos chineses são alfabetizados. A questão é alfabetizar e letrar a população. A ortografia pode ser qualquer uma”, aponta.

Pimentel aponta que as críticas à proposta sempre vêm da academia e não de quem ensina para crianças. "Há pessoas que defendem a etimologia na construção da ortografia. Mas há várias regras em que ela é quebrada. Temos que decidir sermos mais práticos. Assim, as crianças podem aprender melhor", responde.

 

Senado não se posiciona

 

Para o final do ano ou início de 2015, ainda estão previstas novas discussões na Comissão para criar a lista de sugestões que simplificariam a língua portuguesa. Depois, será fechado um relatório sobre o assunto.

Apesar de a proposta ser discutida por um GT no Senado, Cyro Miranda apontou que, em nenhum momento, se posicionou favorável a mudanças. "O Grupo de Trabalho vai fazer as propostas e vai propor as regras. Não cabe a mim, que não sou especialista no assunto, opinar a respeito", disse o presidente da CE, por meio de assessoria de imprensa.

Para chegar à vigência, a proposta ainda precisa ser aprovada na Comissão de Educação do Senado, ir a Plenário, passar pela Câmara, receber sanção presidencial e ainda ser aprovado em outros países. Ou seja, mesmo que o projeto fosse uma unanimidade, poderia muitos levar anos para que ele passasse a valer.

Mesmo com as dificuldades, Pimentel ainda acredita que possa ser feita alguma mudança na ortografia. “Eu acho que podemos sim implementar alguma mudança para 2016. Mas mesmo se apenas colocarmos a discussão para o futuro, já ficarei satisfeito. E tenho certeza que, mais cedo ou tarde, teremos que fazer essas mudanças no nosso idioma”, endossa.

 

Fonte: Agência Brasil