Arqueólogos encontram cerâmica caingangue em Botucatu

A equipe de arqueólogos vinculada ao Projeto Arqueologia no Câmpus encontrou pedaços de cerâmica associada aos índios caingangues. A descoberta, ocorrida no início de setembro é uma das mais significativas desde o início do Projeto, no ano de 2007.
Em apenas uma semana de trabalho, tempo considerado curto pelos arqueólogos, foram detectados cinco novos sítios arqueológicos, dois deles localizados em áreas da Faculdade de Ciências Agronômicas, nas Fazendas Lageado e Edegárdia e outros três externos, em áreas particulares próximas ? área urbana de Botucatu.

A cerâmica caingangue foi encontrada em uma dessas áreas externas, indicada por um morador de Botucatu que procurou a coordenação do projeto com a informação de que poderia haver ocorrências arqueológicas ali.

Apesar de haver relatos da presença de índios caingangues nessa região, nunca houve evidências materiais disso. Há alguns anos foi encontrado um sítio arqueológico em São Manoel que é considerado o primeiro sítio caingangue do Estado de São Paulo. O sítio encontrado pelo Projeto Arqueologia no Câmpus é provavelmente o segundo.

“Essa descoberta prova materialmente a presença de caingangues na região de Botucatu e sugere uma convivência ou contemporaneidade com índios da tribo tupi, pois aparecem cerâmicas associadas aos dois grupos indígenas, além de outras ocorrências mais antigas”, explicou o arqueólogo Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia da USP.

Araújo ressalta que caingangues e tupis tinham costumes e línguas totalmente diferentes. “É errado colocar o índio como uma coisa só. A presença de dois povos tão diferentes sugere que Botucatu pode ter sido um ponto de passagem ou confluência”. Seu colega Paulo Zanettini, arqueólogo que coordena a equipe de oito alunos, três arqueólogos e mais três estagiários da cidade, também acha que muita gente passou por Botucatu no passado. “Estamos longe de conhecer e explorar essa riqueza em sua totalidade”.

O arqueólogo Astolfo Araújo trouxe sua experiência para as prospecções como parte de um projeto acadêmico vinculado ao Museu de Arqueologia da USP onde busca traços de ocupação humana mais antiga, os chamados paleoíndios, que podem ter habitado a região por volta de 8 a 10 mil anos.

Os sítios arqueológicos encontrados são mais recentes, mas considerados muito importantes para a história da cidade. “Muitas pessoas tratam as informações sobre a presença de índios na região como algo distante da nossa realidade, exótico ou curioso. Mas os índios são nossos antepassados também. Se uma pessoa dessa região não tem todos os avós, maternos e paternos vindos da Europa, se apenas um deles é brasileiro, é certo que a pessoa tem sangue indígena”, afirma Araújo. “Por mais que esses índios tenham sido exterminados fisicamente, eles não evaporaram. Os genes desses povos estão presentes em todos nós e as pessoas não tem essa noção. É o passado de todas as pessoas”.

Ao buscar sítios arqueológicos de um período mais antigo, a intenção de Araújo é levantar mais informações sobre o Estado de São Paulo. “Sabemos que os sítios arqueológicos pululam em Minas Gerais, no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Há informações também no Mato Grosso do Sul, mas São Paulo é um grande vazio. Salvo raras exceções não há levantamentos sistemáticos no Estado”.

Por esse motivo, Araújo pretende continuar trabalhando na região. “Devo tentar focar em outros sítios mais antigos, mas ainda vou continuar a trabalhar nesses sítios que encontramos para tentar obter uma boa amostra dessa cerâmica caingangue, ver se conseguimos reconstituir as formas e eventualmente datar, pois a cerâmica caingangue é muito fina e difícil de datar”.

{n}Histórico{/n}

O Projeto Arqueologia no Câmpus nasceu como parte do Projeto Revitalização de Uso da Área Histórica da Fazenda Lageado. Aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o projeto é desenvolvido pela empresa Zanettini Arqueologia, desde 2007, nas áreas das fazendas Lageado e Edegárdia.

As prospecções realizadas resultaram no encontro de várias peças arqueológicas importantes, devidamente catalogadas e expostas ao público no Museu do Café. Desde que o projeto “Arqueologia no Câmpus” teve início, várias pessoas procuraram o Museu do Café para oferecer peças em doação ou para serem colocadas a título de empréstimo. “É uma forma de agregar e trazer novos temas para o Museu que já é amplamente visitado”, diz Paulo Zanettini.

Segundo o arqueólogo, as ocorrências encontradas na região podem contribuir para diferenciar a imagem da cidade. “Nossa matéria-prima é estudar a história desse país produzindo um tipo de documentação que as outras fontes não atingem. Além disso, a arqueologia pode contribuir para incrementar atividades de ecoturismo ou turismo de aventura, entre outros. A região tem um patrimônio arqueológico riquíssimo e isso pode ser utilizado no processo de desenvolvimento da cidade”. O Projeto Arqueologia no Câmpus tem o apoio da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp e da Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais.

Fonte: Assessoria de imprensa
Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp – câmpus de Botucatu/SP
Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais – Fepaf