Jogador de futebol é fatiado e tratado como mercadoria

Tenho assistido alguns jogos da Taça São Paulo de Futebol Junior, que reúne equipes de todo Brasil e a decepção é grande. E nem estou me referindo ao fato do meu Santos ter sido “degolado” na primeira fase pelo Linense, naqueles 2 a 1.  Repito: na 1ª fase!  Mas não é o Santos o tema de hoje e sim o futebol das categorias de base, como um todo.

Vemos jogadores medíocres pensando que já são craques. E quando surge uma promessa no futebol brasileiro já chega ao clube que nem pizza, todo fatiado.  Pertence a quatro, cinco ou seis empresários (agenciadores).  Cada qual com sua percentagem. Nem ele sabe a quem pertence.  É colocado no clube para servir de vitrine e dar lucro aos seus proprietários que só pensam no próximo negócio.  Tratam o atleta como mercadoria.

Por isso fica cada vez mais difícil os times manterem suas bases e reviver a tradição de revelar talentos.  Não compensa formar um jogador. Porque é que o clube vai pegar um menino de 10 ou 12 anos, dar-lhe apoio, estudo, convênio médico/odontológico, alimentação, alojamento, etc, se no fim das contas ele vai parar nas mãos de empresários?

Hoje é muito mais interessante (e barato) trazer um garoto já fatiado como pizza. Só que o clube fica apenas com o caroço da azeitona e as bordas. O restante da pizza os empresários degustam sem o menor constrangimento. E circulam pelos clubes como se donos deles fossem, mantendo estreitas ligações com dirigentes e técnicos.

São incontáveis número de meninos no apogeu dos seus 14 ou 15 anos, com algum talento com a bola nos pés, que já estão nas mãos de empresários, que assediam os pais com propostas mirabolantes. Entre as propostas está a de levar o garoto ao exterior, para fazer um contrato milionário.

E muitos que conseguem serem encaixados na categoria de base de um time profissional esquecem suas origens. Mudam o jeito de andar, de falar, de correr, de se vestir e usam gel. Muito gel.  No campo são cheios de trejeitos e caretas. Acham que são o máximo e acabam dando em nada. Nem os empresários dão jeito, já que no futebol, é necessário um mínimo de talento.

Temos milhares de exemplos de jovens que conseguem iniciar uma carreira, mas não vingam. Com o passar do tempo eles são, simplesmente, deixados de lado por aqueles que lhes prometeram vida farta. Em conseqüência, passam a perambular por muitas agremiações, batendo de porta em porta.  Do Oiapoque ao Chuí. E os que saem do país podem acabar em times do Timfu, no Reino de Butão, em Tongsa Dzond, na China ou, ainda, em Bishkek, no Quirguistão.

A grande verdade é que de mil garotos sonhadores que se iniciam nas categorias de base de um time de futebol, uma pequena parcela (10%, se muito) consegue assinar bons contratos e continuar a carreira. Os demais têm mesmo é que procurar outra profissão ou pagar para jogar. No futebol, o sol não nasce para os jogadores. Mesmo!

E tem outra coisa! Foi-se o tempo em que o jogador brasileiro ira para a Europa como craque. Atualmente, com exceção de Neymar no Barcelona (com a sombra do Messi) nenhum outro jogador brasileiro é considerado craque em suas respectivas equipes. Nenhum! Hoje Neymar é único. Os demais apenas se equivalem. Muitos sequer são titulares.

E acabou aquela história do jogador voltar ao Brasil apenas para encerrar a carreira. Muitos são contratados e depois de dois ou três anos acabam “encostados” nos times e retornam. O país (que era do futebol) precisa se remodelar, mudar conceitos, se reciclar. Aqueles humilhantes 7 a 1 contra a Alemanha é prova disso. Estamos decaindo ano a ano.  Somos o campeão que não convence.  E tudo tem que começar lá de baixo. Na base! E a primeira coisa a fazer é afastar a figura nefasta do agenciador.

Mas como esperar mudanças de um país que tem como mandante máximo do futebol um inescrupuloso e rapace como José Maria Marins?  O torturador e um dos maiores resquícios da ditadura?  Esse mesmo cidadão que irá ser substituído por Marcos Polo Del Nero?  Cruzes! Vamos clamar pela volta de Ricardo Teixeira!   E cantar efusivamente: “CBD não é brincadeira. Volte Ricardo Teixeira”! Barbaridade!