Felipe Massa, sem ter (muita) culpa, decepcionou

“Fernando Alonso é mais veloz do que você”. Essa frase fatídica dita na manhã do dia 25 de julho deste ano em Hockenheim, na Alemanha, ainda martela na cabeça de muitos brasileiros. Faz parte do triste episódio que envolveu o piloto Felipe Massa e está longe de ser esquecido. Mostra o lado podre do submundo da Fórmula 1 onde a competividade, que deveria prevalecer, acaba sendo relegada a segundo plano.

Eu não ia falar sobre isso, já que perdi o prazer de assistir Fórmula 1, mas agora com os neurônios no lugar e cabeça mais fria chego a conclusão de que Massa não teve tanta culpa assim. Ele apenas seguiu as determinações do chefe da equipe e perdeu a oportunidade de quebrar um jejum de 19 meses sem vitórias na Fórmula 1.

Que as falcatruas e manipulação de resultados existem não resta dúvida, mas não pode ser escancarado dessa forma. Foi humilhante para todos nós brasileiros aquele cena protagonizada na pista. Esse procedimento autoritarista da Ferrari pode ter manchado a carreira de Massa para sempre. E, vendo aqui de longe, Massa parece que não é mais o mesmo. Parece que perdeu a gana de vencer.

Não posso deixar dizer que o tempo ainda não apagou minha frustração ao ter presenciado aquela cena deprimente que colocou o Massa, que conheci desde que se iniciou no kart aos nove anos de idade, numa situação constrangedora ao, deliberadamente, abrir espaço para que o espanhol Fernando Alonso o ultrapassasse e vencesse a corrida. Não fosse isso a vitória seria, fatalmente, de Massa.

O pior é que Massa havia tecido severas críticas a outro brasileiro, Nelsinho Piquet que, propositalmente, se envolveu em um acidente no ano passado em Cingapura, cumprindo ordens do chefe da equipe Renault, Flávio Briatori, para favorecer esse mesmo Alonso. O pai de Nelsinho nosso grande tri-campeão Nelson Piquet não se submeteria a uma situação semelhante e o ditado popular “Tal Pai, Tal Filho”, aqui não caberia. Massa criticou, mas acabou tomando uma atitude, também anti-desportiva, guardada as devidas proporções. Forçada, é verdade, mas tomou.

E não podemos nos esquecer de Rubens Barrichello que por várias vezes serviu de capacho para que o alemão Michael Schumacher, subisse ao pódio e fosse campeão por várias vezes. Isso fez com que Rubinho Barrichello fosse (e continuará sendo) ridicularizado no Brasil passando a imagem do perdedor chorão. Mas ele aceitou isso e o mundo inteiro sabia que estava a serviço de Schumacher. E, mesmo tendo o melhor carro por seguidas temporadas, ele nunca ganhou nada por ser um corredor subserviente. Lá na frente quando parar de correr (espero que seja logo), podem ter certeza, vai se arrepender de ter escolhido ser um perdedor e entender que os contratos milionários que fez não valeram a pena, pois a imagem subserviente vai acompanhá-lo por toda a vida.

Observando as atitudes condenáveis de Nelsinho Piquet, Rubens Barrichello e agora Felipe Massa, não posso deixar de pensar nos monstros sagrados do automobilismo nacional como o Airton Senna (o maior de todos, em todos os tempos), Nelson Piquet e Emerson Fitipaldi, nosso primeiro grande campeão. Juntos ele deram oito títulos para o Brasil. Meu Deus, que saudade! E presenciar isso que está acontecendo com os pilotos brasileiros atuais.

E Massa era tachado como o futuro campeão de automobilismo e o melhor piloto brasileiro dessa década com potencial (e garra) para ser campeão. Poderá até vir a ser (e torço por isso) campeão mundial nas próximas temporadas, mas essa incômoda mancha de piloto subserviente adicionada no seu currículo vai acompanhá-lo para sempre, a exemplo de Rubinho Barrichello.

Foram poucos os brasileiros que sofreram como eu nesse episódio. Sempre saí em defesa do Massa, desde quando era piloto de kart, até sua entrada triunfal na Fórmula 1. Estava, constantemente, nas minhas reportagens esportivas. Era tachado de “puxa saco” do Massa, na ocasião, Massinha. Fui também chamado de tradutor do Massinha, já que ele era um garoto muito tímido e respondia as perguntas, monossilabamente.

Por isso me considero no direito de ficar chateado. Numa entrevista sobre automobilismo quando Rubinho Barrichello mostrava sua subserviência cheguei a fazer a seguinte declaração. “Queria que o Massa estivesse no lugar do Rubinho. Sabe quando se sujeitaria a isso? Nunca!” Errei. Foi doloroso vê-lo dar passagem para o Alonso daquela forma. Cebolas! Se tivesse que acontecer, que fosse de uma maneira mais discreta.

Bem, pelo menos agora sei que não estarei mais ? frente da televisão assistindo o restante do campeonato deste ano e os campeonatos nos anos seguintes. O consolo é que não terei que ouvir todas as baboseiras que Galvão Bueno faz, impunemente, nas suas transmissões esportivas.

Alias, já que citamos o Galvão Bueno é bom frisar que ele é o grande responsável pelo fato do Rubinho Barrichello ser ridicularizado por toda a imprensa nacional. Isso porque no auge de sua insanidade cotidiana mental, Galvão, logo após a morte do nosso imortal Senna, disse que Barrichello seria seu substituto. Foi Galvão que outorgou a Rubinho um talento que ele estava longe de ter. E a resposta aí está: Rubinho completou 300 GPs sem conquistar um título sequer, absolutamente normal para um piloto limitado como ele. E o Rubinho é uma pessoa com um caráter irretocável. Se o talento fosse do mesmo tamanho do caráter, seguramente, ele estaria entre os brasileiros que tantas alegrias nos deram com suas conquistas.

{n}Quico Cuter
Jornalista – Autor e Escritor{/n}