Botucatu tem um hino que não é

Acredito que isso só aconteça em Botucatu. A cidade tem um hino instituído por lei municipal em 2004, mas só existe no papel e nunca foi cantado em eventos públicos, embora o Projeto de Lei nº 4568, de 24 junho de 2004, que instituiu esse hino foi aprovada pela absoluta maioria dos 17 vereadores que compunham a Câmara Municipal, naquela época.

Por essa lei, o Hino Oficial do Município de Botucatu deveria ser, obrigatoriamente, executado em festejos relacionados com o aniversário de emancipação política do Município e comemorações de datas cívicas nacionais e, quando possível, nas demais solenidades oficiais do Município de Botucatu. O hino também deveria ser incluído no conteúdo curricular dos estabelecimentos de ensino do município. Porém, isso nunca aconteceu. E, convenhamos, nem vai acontecer.

Desde que foi instituído até hoje esse hino jamais foi tocado ou cantado em solenidades públicas. Ele existe no papel, mas, na verdade, inexiste na realidade da cidade. Nos eventos cívicos da cidade, o “hino” de Botucatu é a valsa de Angelino de Oliveira “Saudade de Botucatu”. Nem se procurar no Google o internauta vai encontrar o hino aprovado pela Câmara. Vai sim, observar que o hino de Botucatu é a valsa do Angelino.

O projeto é de autoria dos então vereadores Newton Colenci Júnior, Ednei Lázaro da Costa Carreira, Domingos Chavari Neto, José Fernandes de Oliveira Júnior, Geraldo Vieira, Ademir Lopes Dionísio (Dimas), Antonio Carlos Vaz de Almeida (Cula), Mauro Mailho, José Francisco dos Santos (Dadá), Joel Divino dos Santos e Reinaldo Mendonça Moreira (Reinaldinho).

Também faziam parte da formação daquela Câmara os vereadores Luis Carlos Bentivenha (Caio), Luiz Carlos Rúbio, José Carlos Lourenção, Antônio Luiz Caldas Júnior, Antônio Carlos Trigo e Cláudio Aparecido Alves (Claudião).

Na ocasião, o presidente do legislativo, Ednei Lázaro Carreira, assinou a lei que instituiu o Hino Oficial do Município de Botucatu, que foi intitulado “Tributo a minha terra”, com letra e música de Cláudio Fanella e participação de Antônio Carlos Blasi, cuja letra e partitura estão nos arquivos da Câmara Municipal.

O pior de tudo é que o hino só foi cantado em público uma única vez, ou seja, no dia em que foi apresentado aos vereadores na Câmara Municipal. O autor cantou, sem acompanhamento (acreditem se quiserem), para que os vereadores conhecessem a melodia. Depois desse dia, embora tenta sido oficializado por lei, nunca mais foi cantado.

Seguramente, o grande erro dos vereadores daquela legislatura foi não ter realizado um concurso público, onde outros compositores interessados poderiam concorrer. Foi uma decisão, exclusivamente, dos vereadores, sem nenhuma participação da municipalidade. Por falta de respaldo popular o hino instituído em 2004, existe apenas no papel. Duvido que algum vereador que aprovou a lei tenha decorado a letra.

E vamos fazer uma reflexão. Se num evento da cidade o apresentador anunciar o hino da cidade e tocar outra melodia que não seja a valsa de Angelino de Oliveira que, diga-se de passagem, é uma declaração de amor ? Cidade, ninguém vai entender absolutamente nada. Botucatu não conhece seu hino.

Não vamos, pelo amor de Deus, tecer qualquer tipo de crítica ao autor da letra do hino. Longe disso! Ele teve a maior boa intenção ao apresentar o seu trabalho. Entretanto, não houve escolha. Esse é o “xis” da questão. O hino foi apresentado na Câmara Municipal e aprovado. Simples assim!

E como se elabora uma lei, que instituiu um hino, sem nenhum tipo de critério técnico? Não teria que ser criada uma comissão julgadora especializada, com envolvimento de diferentes segmentos da sociedade? Seria o lógico. Os vereadores escolheram e pronto! Nosso hino vai ser esse e acabou! O processo não podia ter sido conduzido desta maneira. Então, podemos dizer que hino de Botucatu é da Câmara de 2004 e não da Cidade.

{n}Letra do Hino de Botucatu

Letra e música de Cláudio Fanella
Participação de Antonio Carlos Blasi {/n}

Botucatu,
Nascida neste meu sertão
Em cima da Serra,
Onde os ventos fortes
Sopram em forma de canção.
No teu solo fértil,
Contadas histórias,
Vitórias e seduções.
Os teus rios,
Os teus campos,
Tuas matas naturais,
Em teu solo, riquezas demais!

Botucatu,
És forte em tua tradição
De doar ao mundo
Poetas, professores,
Doutores e também lições.
E no teu ser, e no teu ser,
Herança de teus ancestrais.
Tua Cuesta,
Tua trilha, caminho que a ti conduz,
Representam teu passado,
Tanta glória e luz.

Botucatu,
És fonte de inspiração
Para os teus filhos.
És a protetora,
Mãe de tantas gerações,
E quem te viu, e quem te viu,
De ti não se esquece jamais!
Cidade dos Bons Ares!
Cidade das Escolas!
És o orgulho deste meu país.