Para Saramago, hoje. Beijos da Ana.

Tenho saudades crónicas 
das coisas que não vivi.

Tenho saudades crónicas
e sofro dentro delas,
sozinha e em silêncio,
porque é da natureza destas saudades que assim seja:
não há como alguém que não viveu sentir as saudades que sinto do que não existiu.

Saudades crónicas como estas aqui, ao meu lado esquerdo:
saudades dos teus dedos longos que não apertei
ou do vento que não me embaraçou em teus cabelos.

Ou estas, tímidas dentro de seus estojos:
saudades das covas fundas dos teus olhos para onde nunca espreitei
ou das ondas que não me soluçaram em teu mergulho.

Ou ainda estas, de todas as mais loucas:
saudades das palavras que tinhas guardado para me dizeres (e eu a ti).

Porque a existência da verdade destas saudades que me habitam
está naquilo que não é feito, nem dito, nem engolido pelos olhos

enquanto a onda do mar escorrega para dentro do fim do mundo.

A estas saudades crónicas 
deito-as todas as noites.
Sei que de manhã estarão no mesmo lugar inalcançável,
na companhia do brilho encoberto dos tecidos incompletos,
e a mim enlaçam-me,
estas minhas saudades crónicas,
e não me largam e só me afrouxam
quando choro
e muito.