Para escrever, escrever

É comum pensarmos que quem muito lê, bem escreve. Grande ilusão: escreve bem quem muito escreve. Escreverá melhor quem dominar um repertório vocabular amplo (adquirido também mas não só através da leitura), e escreverá melhor quem tiver acesso a um cada vez maior número de formas de se usar a língua escrita. Escreverá melhor quem se dedicar a observar a maneira como a linguagem escrita está presente em nosso dia, caminhando na direção de um olhar crítico e avisado.
 
Mas para escrever bem o que é preciso, mesmo, é escrever. Muito. Com técnica, disciplina, dedicação e tempo. Eu sei, quase desanima. Mas não é tão grande o drama quanto parece.
 
Há dois momentos fundamentais no processo da escrita. Valem para tudo, do poema que se dedica à namorada à tese de doutoramento em física quântica. Podem estudar-se todas as técnicas e demais gavetas que guardam e fecham a produção textual. Sem o momento do desdobrar criativo e sem o momento da reflexão atenta sobre o escrito, muito pouco se faz.
 
Temos em comum, todos nós seres alfabetizados, um processo de aquisição de código calcado sobretudo nos interditos. No que não se pode fazer. Não se pode escrever errado, não se pode escrever sem usar maiúscula no começo de frase, não se pode escrever sem sentido, não se pode escrever com s quando é com z (e vice-versa), não se pode usar ponto quando é vírgula, não se pode escrever mentiras, nem bobagens, nem palavrões, nem coisas sem princípio, meio e fim. Um nunca acabar de nãos.
 
Escrever é processo. De encontro do si mesmo. Da própria e irrepetível voz. Podemos (e devemos) escrever como escrevia Camões, ou Drummond, ou Clarice… e nessa procura do como um outro Eu se faz palavra, tatearmos por entre essa selva de letras, em busca da nossa própria voz. Infelizmente, não se dá à escrita o tempo de que ela precisa. Para encontrarmos essa voz própria e única é preciso lapidação, observação, compartilhamento. E é preciso permitir que a palavra viva em estado de liberdade, deixando-a que se escreva errado, que não tenha sentido, que não corra atrás da letra certa, que diga mentiras e bobagens e comece do meio para chegar ao princípio. A palavra que não se diverte não se torna canção.
 
Antes de mais nada, são precisos espaço e tempo para poder plasmar no papel as palavras tal qual saídas de nossas mãos. Sem censor interno que fique à procura do erro. Sem desvio do caudal criativo porque é preciso saber se aqui precisa de dois pontos porque é trecho enumerativo. Isso são assuntos para depois. Nesse momento do criativo, são precisas asas. Que voem alto, sem limites no céu. Que experimentem no silêncio e no ruído, dentro e fora de salas, debaixo de árvores e em pleno sol, com companhias que escrevam a seu lado e em solitário isolamento. No meu vocabulário, isto ainda não é escrever. Isto não tem nome. Isto é penetrar no reino das palavras – onde as palavras vivem, como os poemas, em estado de dicionário, segreda Drummond. É construir a capacidade de ouvi-las dentro de si, na direção que queiram. Aprender a ouvir palavras é uma arte que precisa praticar-se quando se quer escrever.
 
Como em toda arte, é preciso matéria. Preciso de argila para uma escultura, de tintas para uma pintura, de sons para uma sinfonia. Para escrever, preciso de palavras. E não de quaisquer palavras: daquelas que vivem em silêncio e que, de repente, porque me atento, as ouço e escrevo. Uma folha cheia de palavras: agora sim, com matéria concreta nas mãos, posso escrever. Agora, com esse papel cheio das palavras que busquei (ou me buscaram?), posso olhá-las. Pensá-las. Refleti-las. Corrigi-las. Dar-lhes pontos e vírgulas e parágrafos, para que respirem. Experimentá-las assim, nessa ordem, depois diferente. E depois daquele outro jeito. E fazer escolhas, sem pensar ainda por que, só atenção ao que o som diz. Palavra escrita é som preso em linhas, que precisa da nossa voz para se fazer verdade.
 
A reflexão atenta sobre a escrita é feita de escolhas. Ao lermos com atenção um trecho de Saramago, ficamos cara a cara com as suas escolhas. Gostamos, ou não – tanto faz. O importante é perceber as opções tomadas, deixá-las ressoar dentro de nós. Aprendemos pelas suas mãos, no uso que faz das palavras e dos espaços silenciosos entre elas. Da mesma forma, encaramos o texto próprio. Aquela junção de palavras que ouvimos e a que demos forma. Agora lapidamos – na maioria das vezes, retiramos mais de metade de todas elas, como um Michelangelo que encontrasse finalmente seu Davi dentro do pedaço enorme de mármore. Na arte de escrever, menos é sempre mais. Quanto mais se retira mais se ganha. Como, então, retirar de onde nada se tem? Como imaginar que um texto nasça do nada, por arte de mágica, e encante pela sua profundidade?
 
Não, não: é preciso ter escrito para poder escrever.
 
A base da boa escrita está guardada dentro das várias versões que se faz de um texto, sem considerar que a última hoje seja a definitiva de amanhã. É bom guardar por uns dias, e retomar o texto. Lê-lo em voz alta, para sentir a música que tem (ou não) na retaguarda. Cuidá-lo como a um filho. Não se pode ter pressa para criar um texto.
 
A boa notícia é que esse é um processo que se aprende; começa a ser trilhado e, com o tempo e a prática, ganha rapidez, ainda quando é só pensamento. Começa-se a escrever enquanto se pensa, e a pensar enquanto se escreve. Adquire-se fluência, tranquilidade, agilidade.
 
Na prática de alguns esportes, existe uma forma de treino específica – o sparring. Com o mínimo de regras e de arranjos informais, e evitando o número de lesões, o sparring é uma forma de colocar teorias aprendidas em prática. O sparring partner, ou parceiro de treino, é contratado não como adversário, mas como um meio de aperfeiçoar a técnica. Também na escrita um partner sparring é algo de imenso valor. Alguém que, com recursos técnicos e experiência prática, auxilia o praticante a esmerar-se no aperfeiçoamento técnico e formal dessa arte. Um sparring partner da escrita lê e comenta, sugere e corrige, apoia e fundamenta.
 
A escola é um terreno propício para a atividade do writing sparring. O professor, com um domínio esmerado da arte da escrita, é o parceiro ideal e privilegiado de seus alunos. Lê e comenta, sugere e corrige, apoia e fundamenta. Vê crescer, diante de seus olhos, as capacidades discursivas, poéticas, narrativas e o longo etcetera que cabe no domínio da palavra.
 
Para isso, no entanto, é preciso que se prepare; é preciso que ele mesmo trilhe com antecedência os caminhos que quer ver seus alunos trilharem; é preciso que se aventure. O domínio da arte está ligado inexoravelmente à sua prática, e o professor que não pratica (ou seja, que não escreve, e reescreve, e busca ele mesmo a sua voz) não conseguirá ser esse parceiro que orienta, nutre e estimula. E precisa, ele próprio, de um parceiro.
 
Ao longo do tempo, chegarão desafios que se guardarão insatisfeitos e incompletos por dentro de cadernos. Há de chegar o seu dia. Como chegarão os nossos, se nos mantivermos atentos à sua espera, confiantes na sua chegada e gratos pela sua existência.