Ideias para reformar o Brasil

Tenho alguns amigos, bem intencionados e vivendo propostas de vida bem bacanas, que me dizem que gostariam de importar os políticos da Suécia (ou seus congêneres), porque lá tem tudo o que eles gostariam que tivesse aqui: um povo educado, políticos honestos, vidas civilizadas. Lixeiros com salários equivalentes a R$11.000, casados com veterinárias que ganham apenas um pouco mais do que isso. Mulheres parindo como deve ser, uma minúscula porcentagem de cesáreas. Motoristas que param para pedestres passarem. Ciclovias cheias de ciclistas, inclusive prefeitos e vereadores. Leis obedecidas. Ruas limpas. Enfim.
 
Logo penso na altíssima taxa de suicídio juvenil de lá, noticiada há anos atrás. Mas me informam que aqui as estatísticas não são confiáveis e que, aliás, há centenas de jovens negros que morrem diariamente nas favelas. Penso em desistir da conversa, e desisto mesmo, porque o rumo da prosa sei lá.
 
Não sei se esquecemos ou achamos melhor esquecer de onde veio e de onde ainda vem a riqueza do hemisfério norte. Que preço pagamos nós para que lá se viva como se vive. Penso nisso, além daquele óbvio ululante de não conseguirmos nunca limpar a nossa pele desse cheiro de colonizado que se impregnou até os fundilhos da alma.
 
Mas para isso um outro amigo tem a resposta. Para a minha incapacidade de perceber as coisas. Ele diz-me, quase todos os dias, que eu não posso perceber o que é isso, porque eu não sou brasileira. Eu não sou colonizada. Sou europeia. Agradeço-lhe a deferença, nem sempre atribuída a quem vem desse país limítrofe que é Portugal. Mesmo que me doa, leve e sutilmente, esse ser posta pra fora de. Essa situação de repente estranha de ter sorte e azar de não ser igual a. Essas ambiguidades me confundem os nervos. Mas vá lá. Ainda bem que são todos amigos.
 
E se for pensar bem, eu posso sentir bem o que é isso, isso de "não ser daqui". Como posso também perceber o outro lado, porque também "não sou de lá". Na verdade, não tenho nem pátria, nem mátria. Talvez culpa da falta de enraizamento que aqueles que se transferiram de país em país e em país reconhecerão quando digo. Nem sou daqui, nem sou de lá, e ao mesmo sou de ambos os lugares. 
 
Niangoran Bouah é um pensador da Costa do Marfim que deixou como legado, entre muitas outras coisas, um documentário-desabafo chamado "Abbandonez-Nous". Com extremas coerência, clareza, combatividade e coragem, de emocionar mesmo, ele advoga para o continente africano o espaço de trilhar seu próprio caminho. De encontrar as próprias respostas. De ser realmente deixado em paz, como única forma de reverter o estrago causado pelo colonialismo, pelo saque de séculos. O seu grito é um pedido em tom de ordem suprema: "abandone-nos", diz ele ao mundo europeu, a essa colonização que a todo custo quer se reproduzir, porque é da sua natureza, numa manobra perversa onde, a certo momento, o colonizado se sente duplamente inferior: pela colonização em si, e por invejar a situação do colonizador, que apenas está onde está porque ele mesmo, o colonizado, existe nesse posto de alter e auto-desvalorização. Essa "vida perfeita" é às nossas custas, e sequer seria a "nossa vida perfeita". A menos que nosso valores sejam os mesmos. E sinceramente, não podem ser. 
 
Todas as maravilhas desse outro que saqueou, roubou, adulterou, manipulou e transformou em um simulacro o mundo que encontrou, para Bouah, não têm valor. Para Bouah, o caminho é claro – chegar ao Paraíso, só através da Liberdade.