COLOCANDO O PINGO NOS IS

A execução por fuzilamento do brasileiro Rodrigo Muxfeldt Gularte (42) gerou uma polêmica mundial no que se diz respeito ao tráfico de drogas. Seria a política do presidente indonésio Joko Widodo a mais correta contra este mal do século? Pode parecer uma pergunta polêmica e difícil de responder, mas eu não teria a menor dúvida de expor minhas idéias de forma contrária à pena capital por vários motivos.

Já foi comprovado que a pena de morte não intimida ninguém. Uma matéria publicada em outubro de 2011 da Revista Superinteressante, mostra que nos Estados Unidos, país célebre neste tipo de julgamento, por mais inacreditável que possa parecer, nos estados que a pena de morte é aplicada o índice de assassinatos e criminalidade é caprichosamente maior que nos outros 14 estados que não a praticam. A mesma matéria aponta que no Irã, a pena capital que foi reintroduzida no país em 1979, não reduziu em nada as taxas de criminalidade.

É bom lembrarmos que o tráfico de drogas, está intimamente ligado ao usuário. Ou seja, se existe traficante é por que a demanda é grande. Tratar o consumidor de substâncias entorpecentes como “doente”, foi a maneira mais sábia que o governo encontrou para escapar de suas responsabilidades sociais. O usuário é fruto de uma sociedade controversa e culturalmente subdesenvolvida. O mundo se revolta contra o traficante, mas nada faz para impedir a fabricação de álcool e tabaco. O alcoolismo principalmente é tão devastador quanto as drogas no que se diz respeito a destruição familiar e morte. Mas nada se faz para combatê-lo e as garrafas de bebida são vendidas livremente em cada esquina que se conhece. Uma pessoa viciada em álcool tem os mesmos transtornos psicológicos que um ser humano usuário de drogas.

Outro fator que muitos esquecem e é fundamental analisarmos é que a Indonésia não é um exemplo de país moralista como se mostra na mídia. Neste tigre asiático a taxa de homicídios é de 8.1 por 100 mil habitantes. É verdade que no Brasil a taxa é muito maior (21.0) mas a Indonésia ganha de países historicamente mais violentos como Paquistão (7,8), Timor Leste (6,9) e Haiti (6,9). Números consideráveis, já que a Indonésia é conhecida como um dos países com leis mais rigorosas do mundo.

Chama a atenção também outro fator interessante. De acordo com a Transparência Internacional, o índice de corrupção na Indonésia é um dos mais altos do mundo. De acordo com dados de 2014, a “percepção de corrupção” (quando as falcatruas do governo são reveladas a imprensa e população) do país asiático é de 34, mesmo número de Argentina e Djibouti. A Indonésia é mais corrupta politicamente falando que Equador (33), Moçambique (31) e Honduras (29). Mais uma vez o Brasil ganha deste tigre da Ásia com índice 43.

Você sabia que o Brasil é o 5º país que mais mata em relação ao alcoolismo? Pois é, de acordo com dados levantados pelo site G1 da Rede Globo de televisão em 15 de janeiro de 2014, a taxa de mortalidade em nosso país provocada pelo álcool foi de 80 mil mortes. Os dados são da OMS (Organização Mundial da Saúde). O Brasil perde apenas para El Salvador, Guatemala, Nicarágua e México. De que adianta o povo aplaudir a Indonésia e o governo daquele país, se não consegue enxergar as podridões que ocorrem no seu quintal?

Minha intenção não foi em nenhum momento defender o traficante Rodrigo Muxfeldt Gularte, pelo contrário. O que eu e muitos analistas discutem é a eficiência da execução da pena capital e a maneira como focamos um problema e desconcentramos em outro.

O presidente da Indonésia parece que usa as mortes por execução, como um escudo para disfarçar as podridões de seu governo.

 

Cesar Junior