A escrita e o pastel

Passo hoje o dia mergulhada na escrita. Dos outros, não minha, mas da mesma forma maravilhada e plena. O tema, a poesia. O subtema, a sua vivência. O subsubtema, na escola. Perfeito.

Denise, que conheço há pouco mas parece muito, é a promotora e culpada deste feriado passado assim desta forma, trabalhando quase que pelo absoluto prazer de o fazer, descobrindo mais um tanto de coisas enquanto parece que a ajudo no que precisa fazer. Não é bem assim: dá-se daqui, recolhe-se logo ali. E entre um papel e outro, tempo para isto que faço aqui: dar-me sentido a partir da escrita.

A meio do dia, vamos almoçar. Descubro que conheço uma das cozinheiras, mas não daqui, deste restaurante do Seu Luís que sempre que chego pergunta por toda a família, sabe até metade do nome dos meus filhos! Até há alguns meses atrás a Clarisse (invento-lhe o nome, não lho perguntei) trabalhava na pastelaria do Mercado Municipal, aquela que é a primeir ? entrada e a melhor, diga-se de passagem. Não resisto e vou dar-lhe um abraço, porque há tempos que a pastelaria não vê meus pés e nem eu a ela. Só conversamos uma vez, mas foi tão marcante que ficou.

Assim que me sentei no banquinho e pedi um ovo empanado (que é muito melhor que pastel), ela sorriu e foi lépida buscar o dito cujo. Voltou e ficou sorrindo ? minha frente, certa de que, como eu estava sozinha, devia precisar de companhia e conversa. Perguntei-lhe se gostava de trabalhar ali, disse-me que sim. Que fazia pouco tempo, mas que estava gostando, muito. E porquê? Porque gosto muito de escrever.

Foi-se na direção de outros fregueses que entretanto chegaram e eu fiquei-me com a dúvida do que teria mesmo a ver uma coisa (vender pastel) com a outra (escrever). Voltou logo depois, mesmo sorriso, mesma disposição de prosa. Arrisquei a pergunta. “E o que é que você escreve aqui?”.

“Ah… os pedidos dos clientes!”, respondeu com um sorriso alargado, cheio daquelas águas de quem sonha com o fim da seca, ou com a própria cama depois de meses a fio na boleia de um caminhão. Meu sorriso foi diferente – e voltou hoje, acrescentado, quando lhe vejo de novo os olhos claros e a poesia toda que pavimenta seu caminho. Sem que ela saiba, dessa forma que só a poesia tem de permear a vida das pessoas, sem aviso, sem notificação, quase sem sentido e certamente sem pressa. A Denise gostou da história – quem sabe passa a fazer parte do seu texto!