Prédio do Cine Neli passa a ser da Prefeitura

Por 11 votos a 06, entre 17 (votos) possíveis o prédio do Teatro Amador da Escola Normal “Dr. Cardoso de Almeida” (Taenca), onde está instalado o Cine Neli, passa a ser incorporado ao patrimônio da Prefeitura Municipal de Botucatu. Votação aconteceu nesse final de semana, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – Subseccão de Botucatu, Praça XV de Novembro, nº 30, região central da Cidade.

A eleição foi coordenada pela atual diretoria do Taenca que tem na presidência Pedro Sansão, sendo vice-presidente, Valter Carrega; patrimônio José Armando Pescatori, secretário Paulo Jesuíno, tendo no jurídico o advogado Samir Daher Zacharias. A diretoria se mostrou favorável a dissolução do Taenca e o prédio poderá ser usado para outros fins, de acordo com as necessidades do Executivo Municipal.

Após a votação já foi especulada a possibilidade de o imóvel do Taenca onde hoje está o cinema, passar a abrigar o Centro Cultural, que está no térreo do prédio da OAB que fica ao lado. Se o Centro Cultural vir a ocupar esse espaço, ou seja, ir mesmo para o prédio que até então pertencia ao Taenca, o espaço do Centro Cultural poderia ficar com a OAB que aumentaria seu espaço físico de maneira considerável. Essa definição deverá ocorrer nas próximas semanas.

“Nós lutamos até o fim para evitar que um patrimônio cultural da cidade fosse extinto e que deveria ser preservado”, comentou o sócio João Aguiar contrário ? dissolução do Taenca, que ainda não jogou a toalha. “Perdemos a eleição, mas vamos avaliar e ver o que poderemos fazer para reverter essa situação”, afirma.

{n}História do Taenca{/n}

José Paes de Almeida Nogueira Pinto, filho de um dos fundadores do Taenca lembra que a entidade foi criada em Botucatu em março de 1951 e dia 30 de setembro do ano seguinte foi protocolado um ofício junto ao Cartório de Registro Geral da cidade – 1ª Circunscrição, solicitando o registro do estatuto da entidade. Tinha início aí uma história de luta e trabalho em prol da cultura botucatuense, com a finalidade de “incentivar e desenvolver a arte teatral e musical em nossa cidade” transformou-se em realidade.

Posteriormente, feito uma campanha para que o Taenca tivesse sede própria, um teatro que fosse propriedade daquele grupo, que se concretizou com um acordo com a Empresa Teatral Peduti, uma das principais distribuidoras de filmes em nosso país e que tinha sede em Botucatu. Assim, a empresa entrou com os recursos necessários para que o teatro fosse finalizado, bem como ficou responsável pela aquisição do mobiliário.

Como contrapartida a empresa poderia explorar o espaço com a abertura de uma sala de cinema, sendo que algumas datas a cada mês seriam reservadas para apresentações teatrais. Assim, Botucatu ganhou um cinema para os padrões da época, bem como um teatro de excelente qualidade.

O acordo funcionou bem por muitos anos e não somente o Taenca, mas vários outros grupos teatrais da cidade passaram a utilizar o espaço do Neli. Inúmeras montagens foram realizadas e etapas do então Festival de Teatro Amador do Estado de São Paulo tiveram como palco o Neli, especialmente durante a década de 60 e início dos anos 70. “Também o Taenca e o Neli foram palcos de resistência ? ditadura militar, em uma época tão difícil de nossa história”, frisa Nogueira Pinto.

Vários jovens que aqui se apresentaram como amadores, posteriormente vieram a exercer um papel de destaque no cenário teatral nacional, como Márcio Aurélio, Carlos Alberto Sofredini, Paulo Betti, Paulo Jordão, Alcides Nogueira, este último botucatuense e integrante do Taenca, Lima Duarte, Walmor Chagas, Cláudio Correa e Castro, Fernanda Montenegro, Marília Pera, Umberto Magnani, Denise Del Vecchio e tantos outros.

Ainda segundo relato de Nogueira Pinto, a partir dos anos 80, a entidade entrou em um processo de declínio, com a realização de eleições que propiciou o encastelamento de um núcleo de poder que se apoderou do espaço físico e das instalações do teatro, sem prestar contas ? sociedade, bem como aos órgãos fiscais. Atividades ainda eram desenvolvidas com um grande esforço de algumas pessoas abnegadas, como Felício Ferreira e Jayme Sanches, mas o Taenca já não era o mesmo.

A situação passou a incomodar muitas pessoas, não somente da classe artística da cidade, mas também aqueles que conheciam a história do Taenca e o enorme sacrifício que havia sido despendido para sua criação e manutenção. Várias tentativas foram realizadas para tentar dar fim a essa situação, mas elas não prosperaram. Finalmente, em 2012, um grupo de pessoas representadas pelo advogado Samir Daher Zacarias, conseguiu junto ao Poder Judiciário, o “resgate” do Taenca.

“Final feliz? Infelizmente não. A diretoria empossada marcou uma Assembléia Geral em que o ponto de pauta a ser discutido foi a dissolução do Taenca e a entrega de seu patrimônio ? Prefeitura Municipal de Botucatu. Por que passar ? Prefeitura a posse e gestão do Taenca? Por que não abrir uma grande campanha de adesão de novos sócios e aí sim discutir o futuro dessa importante entidade cultural de nossa cidade?”, questiona Nogueira Pinto.

E ele conclui: “Acredito que a gestão da cultura não deve apenas ficar restrita ao poder público. Entidades privadas também podem e devem fazer este papel. Vejam o exemplo dos pontos de cultura espalhados por todo o país. A partir de uma gestão privada, com apoio do poder público, eles têm sido extremamente importantes e podem ser considerados casos de sucesso. Assim, a Prefeitura de Botucatu poderia, ao invés de tomar posse, colaborar com o Taenca neste seu resgate. Que ao Taenca fosse dado o direito e a chance de voltar aos bons tempos. Que ele volte a produzir cultura e desenvolva projetos sociais”.